sexta-feira, novembro 17, 2006


TECIDO

Esguicha o fio tênue e a invisível rede tece,
a laborosa aranha, em continuado labor,
e, a trabalhar, assim, naturalmente esquece,
a atormentada lida, as desilusões e a dor.

E vai e vem e volte e, em volteios paece,
que uma dança a envolve, em tanto vigor,
por fim, se imobiliza, ou finge que adormece,
à carícia da luz, no desconfortante calor.

O seu instinto trabalha - o objetivo é a teia,
que se alarga, se liga e prende, enrodeia,
em torno do invisível, a delicada aranha...

O poeta, em fios de nada, as malhas urde e tece,...
no labor que o fascina, a própria mágoa esquece,
e, apenas, a sorrir, moscas de luz apanha.
naenorocha/música



Pelo pisado do pé,
ninguém diz:
É negro, é branco.
A pele dista,
mas é só um manto.

O branco tem
no olho um preto,
no do Preto
tem um branco.
E Deus os fez,
com amor, do mesmo tanto!
naenorocha




Dia claro,
Dia branco,
Dia, Sol.
Só, um lindo dia.

naenorocha

quinta-feira, novembro 16, 2006




Tuas mãos,
minhas mãos,
Minhas mãos,
tuas luvas.
Protege-me
cruza teus dedos nos meus,
me leva, vamos embora.

naenorocha


TEMPO DE AMAR

Noite de amor: - Na sala, onde a alegria,
Entre os lábios fogos, não se cansa,
O teu olhar, de longe, me sorria,
Sorria, em meu olhar, uma esperança.

Manhã de amor: - O campo perfumado
De luz e de rumores está cheio,
Meu coração perturba-se, agitado,
Ondula e freme o teu ebúrneo seio.

Meio-dia de amor: - Terra escaldante,
Abrasada de lúbricos desejos...
A tua boca, rubra e trescalante,
Prende-se à minha, em demorados beijos....

Tarde de amor: - Há na terra e nos mares,
Cintilações de tênue claridade...
O teu olhar e o meu – nossos olhares,
Perdem-se ao longe, em lúrida saudade.

naenorocha


AOS REBENTOS

És como os campos de outono, indescritível,
Antes que o vento derrubem as flores ao chão,
E eu o sacrifício de um verão limpo com tudo visível,
Ou a estação mais próxima do desespero, um cão.

És o alívio dos olhares meus, lançados às flores,
És a cotovia cantando distante, e seu canto entoa,
A absoluta certeza de um dia que vem, em cores,
Eu, o que separa uma coisa da outra, um marco à toa.

Enquanto vives, por que sabes viver, e sabes que é bom
E tiras desses momentos prazeres a encherem os olhos,
Eu não distingo os mares dos lagos, e nem ouço o som,
Da tua voz tão límpida, como água que na nascente brota.

Sou eu um estorvo, um balseiro nos caminhos teus,
Enquanto limpas e deixa todos abertos os meus,
E não por piedade, digas mim que quizestes, pra teu,
De mim alguma virtude, ou meus olhos cor de breu.

naenorocha
POEMA

Poesia
é
a
forma
caricata
do
coração
da
flor

da
rosa
do
jardim
do
orvalho
do
amor
da
dor
dos
olhos
da
cor
da
vertigem
da
queda
doventre
do regaço
das
colinas
das
campinas
do
horizonte
do
vago
dos
anjos
do
celestial
do
peito
em
frangalhos
.
naenorocha


GUARDIÃO

Eu não sei se o que me arremete é medo,
ou uma coragem de esquecer segredos,
porque eu só sei dessas verdades ditas,
longe de tudo que se destina a ter-me.

Eu não tirei do pão, não desses famintos,
que comem cru e se lançam nas pias,
o desaforo que nem mesmo o fogo,
leva seus restos já lá para outro dia.

Estou usente da ausência finada
o mundo que se explode em mim é nada,
diante do sonho de um tempo de nada,
ser um burguês de vida emprestada.

E diante, adiante de tudo, o rumo é o cais,
ser como os honestos, já se dá por certo,
a minha sina de sempre ser o guardião alerta,
dos deuses do olimpo, que não dormem mais.
naenorocha

quarta-feira, novembro 15, 2006



LANÇADO FORA

Lançado ao tempo como um arpão dormente,
fixei-me nestas lonjuras, distando do mundo,
e quando me vi, já fisgado à fera, pelos seus dentes,
me deixei servir, de sua força e num retumbo,

Largando me mim mesmo, como separando,
e descendo mais do que havia me lançado,
despachei-me inteiro por sobre a carcaça,
daquilo que era o meu destino estranho.

Mas se a força que me fez, volver aqui,
arregaçou-se a alma, e me quiz, voltar,
por caprichos de uma visão em que vi
eu, com os meus dilemas, a muito a morar.

E se outro arpão arremesado fosse, a mim,
em vez desta a besta, possante e vulgar,
posto que sabendo, não me querem, assim
prefiro o ponteiro mesmo sem acertar.
naenorocha

NUA

Nudez, a primeira veste da mulher,
a que mais se lhe aproxima do que é
a que não se lança fora quando é frio,
a que não suspende ao avesso, a maré.

Uma mulher nua não é de supreender
nenhum olhar que com mais inveja ver.
A mulher ao despir-se dos algodões e seda,
revela-se, se como chegasse, ao romper.

Uma mulher vestida, ou revestida de pele,
está como a provar um modelo feito,
que lhe caiu sob medida, em cintura, e velo
e se posta agora, sob o altar, mais enfeito.

Uma mulher recoberta de tecidos, fitas,
é assim, uma mentira fixada aos olhos,
porque nossos sentidos de homes aflitos,
a verem assim:, nua, nem com uma gola.
naenorocha

O AMOR SE FOI

Quando o amor se vai
não sai sem antes olhar,
se alguma marca deixou,
porque até isso ele raspa.
quando o amor viaja,
não é como de férias, gozar,
ele vai levando tudo,
tuias, malas, perfumes,
sai como de assombro,
fugindo de sua sombra.
O amor não sai furtivo,
a porta principal ele abre,
olha em volta o escalabro,
do tempo que esteve guardado,
e vai, mesmo com tempo contrário,
ele sai, por réstia se o vento fechara,
a porta que ele havia aberto,
e não diz mais meu abrigo,
sai às vezes machucado,
sai às vezes já sarado.
Quando ele vai, vão-se
com ele as demoras,
já era tempo de ir embora,
e o amor se vai,
e quando sai,
bate todas as portas,
trava bem as janelas,
e deixa dentro as quimeras,
o que comera e bebera,
nos últimos dias de espera.
O amor quando sai,
é como se escapara do cativo,
o amor, não foge humilde,
erque-se além de onde pode,
e fala na mais branda voz.
Aqui eu nunca fiz morada.
Quando o amor se vai,
leva tudo o que é de seu,
e nada, nem o pó das chinelas,
carrega do que é alheio
.
naenorocha


AMOR ANTIGO

Um amor antigo
O que já atravessou os perigos,
E não se acabou.
Não mais depende, até da presença,
Se aquieta em si, não pede nada,
Mas o destino não tem como sentença.

Um amor antigo
Vive além do mundo,
Aquém dos juízos que se faz,
Não conta de um rompante,
Que se apegue e beije-o
Isto não lhe apraz.

Se um turbilhão de eventos,
Aconteça do nada,
O amor antigo, mantém-se calado,
Ao intempestivo,
Requer da bonança,
O mesmo sossego, a mesma esperança.

Um amor antigo, tal como o vinho
Vai se depurando,
Ao chegar o tempo
Como o qual não contou,
Está ele vivo, frio,
Com todo o seu sabor.

naenorocha

terça-feira, novembro 14, 2006


NÃO É O TEMPO

O tempo ainda não se completou,
Pra que já carregues a cesta na mão,
Ainda nenhuma árvore sequer brotou,
Pra que já leves a mão ao peito, em gratidão.
Quem nos assegura de uma safra boa,
Quem impedirá, com certeza os gafanhotos
Famintos, que já dão sinais, não tardarão,
Como já estão por vir, os que não plantaram,
E querem dividir. É justo parar, agora,
E sempre, ante da hora, não pernoitar
Ao relento, sabendo que ainda demora,
A nossa hora, marcada à frente, o tempo.
Não é tempo ainda de falar de presságios,
Ou de visões que tivera, quando angustiado,
Sonhastes tantas vezes, vi, acordar assustada.
Tudo que temos, não nos foi dado, em tempo,
Tudo o que não galgamos, de lutar tivemos,
E assim com tudo, com os amores, as dores,
Com os anéis, os dedos, a mão, a intenção,
Tudo, tudo, nos foi dado, por dizer-se,
Não que não tivéssemos dado tudo a ver,
Os anos, as peles, o sangue, o coração,
Pois tudo o que fizemos foi, como
Reclinar diante de Deus, e clamar,
Na mais concentrada e ardorosa oração.
Ainda não é tempo de levantarmos,
Sequer a mão. Nada há pra pegar ainda,
Pois que se adivinho, fosse logo ali,
A messe, o plantio todo maduro,
Seria eu o primeiro a falar-te, vamos,
A messe é grande e o tempo urde.

naenorocha

DESPERTAR

Vem, de amores, a madrugada,
De claridade, encantada,
De longe, do muito além....
E as clareiras despertam,
Límpidas, bem vivas, alertas,
E alegre cantam também.

Agora, em que tudo é vida,
E a vida.... forçada lida
De novo a recomeçar;
O tempo em que, na campina,
A sempiterna bonita,
Começa a se balouçar.

O lavrador, no caminho
Da roça se vai sozinho,
Da autora ao meigo rubor.
É a hora em que tudo é festa
E, da cidade à floresta,
É tudo luz, tudo amor.

O Sol, a serra dourando,
Vem, pouco a pouco chegando,
- enorme carro a rodar...
E a natureza, sorrindo,
Desperta, contente, ouvindo
O mundo todo a cantar.
naenorocha

RIO PARNAÍBA

Ah o rio visto de longe existe,
Um veio claro de cá de distingue,
Meninos nus brilando sorrindo,
De perto, o rio, seu veio, inexistem.

O que fizeram pra espantar as águas,
E elas haverem se escondido longe,
Já na nascente, borbiçha e se escondem,
E chegam já aqui como gotas de mágoa.

Rio que outrora, varria suas curvas,
Corria a um tempo que não se alcançava,
Hoje qualquer bêbedo pernoitando o escuro,
Não ver mais as densas águas que avançavam.

Rio inerte, ainda te favoreces ter,
Teu próprio leito a para já se deitar,
Não tens a mão, quando pra se afogar,
Tua boca em lágrimas de não se conter.

Rio contigo tenho chorando muito,
O teu destino era o mar, não meus olhos,
Mas eu como sou teu afeiçoado súdito,
E ainda sou mesmo que, tanto choro.

Rio de minha infância, da minha descoberta,
Córrego que ias o mais distante do mundo,
Hoje trafegas mesmo em ti, no rumo,

Onde não chegas, as águas se secam.

naenorocha

ORAÇÃO

Lua de minha adoração,
Noite contraste do seu clarão,
Estrela pássaros catando,
Céu das minhas mãos.
Tudo insondável e visto,
Como o dia que se mostra,
Não vemos tão nítidos assim,
Por que não os vemos
Com os olhos da cara,
Mas com o olhar,
Que só tem o coração.
E pra lá que nos elevamos,
Em mãos, em preces,
Em gratidão,
E mesmo que num momento
Julguemos muito difusos,
Já os clareia nossa razão.
Os nossos tinos predestinados,
Por Deus, serem assim em vida,
Em morte, já teremos ganho,
Asas. E o mistério
Já se terá sido despido.

naenorocha


ALMA

Por sobre os montes, os vales mais densos orvalhados,
Por sobre o segundo plano, o éter, e o terceiro, oco,
E muito mais além dos astros, não sei onde os coloco,
Muito além dos fins ou dos começos, entrelaçados.

A minha alma voa, vai, com toda a aprendizagem,
Como um dia sonhara o homem voar, sem asas,
Como um passarinho num vôo rasante nas margens
Do oceano imenso, invisível também sobre as casas.

Ainda mais longe deve voar, ausentar-se num tempo só,
Para aí parar, sentar-se, desculpar-se dos erros repetidos,
Das aventuras já sabidas, sem sentido, a ter de si dó,
De não mais querer, para si o retorno, a vida descabida.

E ante o pesar dos vazios terrenos, que ela se erga,
E não repita na companhia de quem no momento esteja,
Os mesmos trejeitos, as tangenciais de fuga e erro,
E nesse tempo, aonde estiver retenha, a índole malfazeja.

Aquela mesma viagem, como um pássaro sem termos,
Fez na subida vertical furando os planos, a luz o sol,
Que ela saiba dos caminhos de antes e também perceba
Que todos os lugares são propícios ao vício de ser só.
naenorocha


POETA

Quando por determinação da potência divina,
Um poeta se faz, neste plano desvanecido,
A mulher que lhe logrou, parece, advinha,
E em clemência pede a Deus, compadecida.

Eu levei no meu ventre por onde caminhei,
Um agourado ser, que por dele padecerei
Tudo de mim novamente, como se nadei,
Cheguei longe da ilha e vim me ter no mar.

Ai, nunca irá sarar, a ferida de sua saída,
E assim nunca me esqueço, pari um ferida,
Uma chaga aberta para o que caia em deslize,
Um ser pesaroso, pesado, alma contrita.

Meu Deus eu me comovo, de não poder criar,
Seus sonhos como os meus, que são diferentes,
A minha alma simples vislumbra o que há,
E ele enternecido, espera o sol nascente.

Quantos desses há por esse mundo, soltos,
E quantos deles nós, mães, fomos capazes,
De amá-los como amamos iguais a outros,
Deus, será um poeta um projeto de paz.

naenorocha

ALHEIO

Ainda não se firmou a noite,
mas prá mim, que ando no céu,
é como que já se fosse,
tudo escuro abaixo, onde já foi.
O ocaso não se completou,
ficou, entre o claro e a escuridão,
e prá mim que vôo ao léu,
não sei ficar em prontidão,
esperando que se complete.
Certo o tempo se encarregará,
de tudo colher, desarrumar,
fazer que se complete o dia,
e siga as estações do céu, do mar.
Fazer surgir do ermo o vento,
que entendam a difusão das horas,
o embaraço dos fios de memória,
que se faça ver este tormento.
Pouco importa de onde o vento
traz os vestígios em seu bojo,
a mim que que num rojão vou,
o que é de ontem, é dete momento.
naenorocha

segunda-feira, novembro 13, 2006


MONSTRO DA LAGOA

Nem sempre se consegue na primeira mira,
Acertar o monstro que à frente se ergue.
Uma ameaça dúbia, que os olhos se esfregue,
E terá virado um oco de onde sumira.
O perdão foi dado à fera, que não ameaçava,
No entanto aos olhos que erraram a cria,
Fica imposto a mais dura pena imputada,
Depor contrário à luz que já se refazia.
E quando o mundo impiedoso esfrega,
Por nosso rosto as razões da covardia,
Se ergue apenas por capricho dele, a mera
Visão de quem não mais se compadecia.
E estarão tiradas as palavras ditas,
Como que um pacto desfeito, sem vitória,
E terão perdidos, e perdido a vida,
Que por muitas queixas, se dirá inglória
.
naenorocha


POESIA

A intenção da poesia é mexer com a noite, o dia,
Fazer uma revolução de letras, experimentar a ousadia,
Pra ver se vem ao seu encontro os olhares mais melosos,
As palavras escabrosas, que ela insiste, que fazia,
E de tudo a poesia tem, de lagrimas sem razão,
A lampejos de dor e ódios arrebentando o coração,
Asneiras que ninguém ousa sequer segurar um pouco,
Enquanto a tinta seca e ela se firma sem razão.
Quem faz poesia provoca a quem está quieto,
Acomodado, acostumados aos seus desafetos,
Sem se odiarem, nem se lembrarem, nem se tomarem
Um para o outro, aceitada a distância de gênio e lugar.
O papel da poesia reside no caderno, no papel de pão,
Na carteira de cigarros, numa caixa amarrotada,
Ou, pior que se veja, pode está almeja, perto do coração.
E se um ataque fulmina a vida de quem, desmilinguida,
Leva tudo pra razão, e chora e grita, gesticula ao infinito,
Dá um piripaque e cai. Quem se responsabilizaria
No caso pelo óbito, o poeta mentiroso, ou a poesia anedota.
Fazer poesia é talvez o maior descalabro,
Pego um papel e abro a caneta e disto a pensar,
Em amores que não tive, aventuras que passei longe,
Em guerras que nem a data preciso, em chorar.
Par se ler uma poesia tem-se obrigado o preposto
De estar-se a ler a carta de Pero Alves,
Que dava a forma das índias dessas meninas de agora,
Musas de um verão carioca, pircings, barriga de gora,
E aos índios, surfistas musculosos, tatuados, o corpo inteiro,
Com dizeres e figuras do tempo, ai love iu, mai love!
naenorocha


SOLIDÃO

Hoje a solidão mora em mim
Na tua ausência,
A tristeza fez de mim
Uma residência,
Para a saudade habitar.
Hoje não há mais beijo molhado,
Nem um abraço apertado,
Só o silêncio do adeus.
O tempo vai tecendo lentamente.
O que antes era apenas,
Uma passagem estreitada
Entre mim e um emparedado, nada de eterno
Vai ficando, a se perder.
E as marcas dos garranchos,
Na algibeira, pendurada, na travessa,
Acompanham esses dias lentos,
Rodopiando, sem movimentos, aremesa
Ao mesmo lugar, ao mesmo momento.
E a vida que em tudo acorda e dorme,
Parece agora que despertada,
Amanheceu serenada,
Dos prantos que a noite

Comigo choramos quietos,
Sem que ninguém percebesse.
naenorocha



FÁTIMA

Viram, os meninos pastores,
do céu uma luz,
descer e pairar sobre a terra.
E dentro, em seus corações,
sentiram a invasão,
da fé e de tantos segregos.
E como a mando de Deus,
caíram no chão de joelhos.

Fátima, Fátima,
A Mãe do Senhor entre os homens.

E eis o que a Virgem falou:
Sou Eu a Senhora,
que leva o rosário da fé,
e a qualquer descaminho,
as contas serão,
maneiras de se conduzir.
Como uma mãe fala a um filho,
pediu que, assim, nos guiasse

Fátima, Fátima,
a Mãe do Senhor entre os homens.
naenorocha/música



FAXINA

Arrumar a vida, por as coisas que posso nos lugares,
Soprar poeiras, dar flaneladas até onde alcanço,
Deixar o pó que resistiu até aqui, retraído.
Cair sobre mim, sujar a roupa que pus a emporcalhar-me.
Tirar os escombros de livros, revistas velhas, velhos pecados,
Distantes traumas, traze-lo a tona, lava-los, ensaboá-los,
Depois deixar ao sol, martiriza-lo o tempo necessários,
A ver-me vingado, aliviado do seu peso e grude.
Tirar dos cantos as aranhas gigantescas dos meus sonhos idos,
Afoga-las numa bacia extensa e funda,
Tirar os entulhos acumulados, amontoados sobre mim,
No quarto onde eu dormira um sono sem fim.

É só esta vontade que em mim, vale agora.
O trabalho de arrumar, varrer, cortar, verter,
Me dará certamente momentos de acomodação,
De mim comigo mesmo, estará fazendo um bem
A quem mais agiu desfavorável, criando essa deplorável sujeira.
Queria poder tocar todos os milímetros da minha vida,
E em todos bater, sacudir, espanar, até que que fiquem exautos,
Meus braços e meus músculos, deixando-me ainda,
mas que ainda me deixe aficionado com a idéia de limpa-la.
Acho que depois do sacrifício tamanho, alguma mudança,
Alguma diferença se notará, em mim, externamente fétido,

Mais dentro, um alívio, um aroma bom, uma vontade de ficar.
naenorocha


DESPERCEBIDA

Vi passar num lampejo, como um raio solto,
Algo que a tempos não vejo, e já julgava isento,
De entre todos que sinto forte ainda a presença,
Teria sido milagre, uma aparição distraída, oca,
Ninguém, nada se passara comigo, ou passara,
A rara estrela que no firmamento muito pouco anda,
E quando anda se põe estática, pois o céu que passa,
São as nuvens que voam, e vão e voltam em bando.
Tal como os passarinhos, que moram distantes,
Essa rara luz errou de itinerário, e dos lados,
Agora se exibe, também, rapidamente, desconfiante,
Acertou na volta que deu um vôo raso, errado.
O que ela não sabe é que me mantenho indiferente,
Quer ela por aqui, com seu lume chegue à frente,
Vá para onde veio, distante onde mora, ausente-se

Que por aqui fico vendo quem a mim, está vendo
naenorocha

NU

Belo o teu corpo absoluto, nu.
O que não te mostras, como despida,
Vê-se desta forma a beleza mais nítida,
A cor do teu olhar, de extremo azul.
Linda quando andas displicente,
Sem nem perceber que do teu redor,
Choram por ti, clamam comoventes,
Todos os olhos cheios deste pó.
Um alucinante vestígio que escapa,
Como uma réstia de luz no telhado,
És assim, a gota, o tudo que faltava,
A transbordar as taças dos embriagados.
Belo este teu corpo sólido, imenso,
Em consistência e beleza cândida,
Que nem a lua num fogaréu de incensos,
Se tem mostrada, com o apelo lânguida,
Fosse eu teu um protetor de luz,
Me postava em riste, em tuas posições,
Sombreando a pele, que a mim seduz,
E te revelando tudo, todas as emoções.

naenorocha

domingo, novembro 12, 2006



TEZEU

Até aqui nós caminhávamos mais afinados até,
Que o violino em destaque, na orquestra,

cujo, para que mais se ouvisse e destacasse
se punha sobre um degrau acima, de pé.
Éramos dois, e havia quem contasse, um,
Tamanho sincronismo, interno das batidas,
De nossos corações, em contratempo,
Um sincopado bom, que nem na avenida.
Na apoteose, o fim de tudo, que tudo se dá,
Fica o passista com os pés a sangrarem
E a tempos sangra as mãos dos bateristas.
Éramos sós, mas era como se o mundo todo,
Se posicionasse em redor de nós,
Como no meio da rua, fica o malabarista,

Cercado de espectatodres, sob o sol,
Éramos nós, Adão e Eva, mais a serpente,
Ceci e Peri, mais o mal inocente,
Tezeu e Zeus, Narciso e o espelho,
Lampião e Maria Bonita,
Um fanfarrão e sua garrafa quase vazia,
Éramos dois, mas tinha quem
via nenhum.
A distinguir de longe, mais profundo, que o coração.
Se não contassem, cenas de amor implícito não veriam,
Como não saberiam o tamanho do amor,
Que pouco a pouco foi virando dor,
E de dor passou, a mancar das duas pernas,
E num dia que era pra ser festa,
Ele minou. Se acabou.
Ainda deu algumas viradas para os lados,
Mas estava ferido mortal,
E definitivamente, se transformou.

naenorocha
AMAR

Amar é viver de um sonho,
um sonho eterno de gozo;
é ter no peito risonho,
um coração venturoso.

Amar é ter nas estrelas,
as confidentes na dor,
e quando de noite vê-las,
cantar-lhes as mágoas e amor.

Amar é ter um delírio,
a dor no peito gravada,
é rir-se quando o martírio,
a nossa alma traz declinada.

Amar é viver chorando,
ou rindo, o que mais se afirma,
É ter na dor soluçando,
a calma de um paraíso.

Amar é fogo, é loucura,
loucura própria dos loucos,
é febre ardente, é ventura,
que a vida provoca aos poucos.

amar é ter os ressábios,
do rubro vulcão dos beijos,
É ter sorrindo nos lábios,
o bando azul dos desejos.
naenorocha
TEMPO

Passa o tempo e a estrada vai,
aonde só ela sai,
e eu não consigo ir.
Cada passo conta tempo,
e o coração ainda ainda inventa,
amores pra eu ir buscar.

Tempo,
que se conta rápido e lento,
pra o quando dura a alegria,
a espera se ela vem.

Vida, ainda,
que eu te inventasse de novo
vendo o tempo,
eu nem saia do ovo.
naenorocha

LUZ

Que mulher é essa que chega trazendo o dia,
Que traz acomodado em seu regaço,

Todos os sonhos malogrados,
E sem mostrar nenhum apego, no solo enfia,
Como a pouco tivera um parto sangrento,
Desses indesejáveis, pesadelos, e em hora,
De toma-lo nos braços o alijado rebento,
Trouxe-o para fora, e límpida, laçou-o fora.
Que mulher é essa que cuida de todos os sonhos,

Que se predestinou dá o melhor de si a nós,
Poucos merecedores, do tanto que somos reles,
E por mais vezes agimos como um ser ignóbil,
Assim, por bondade não vê, que somos pele

Muito mais que ossos, desprovidos de coração
O tempo que Ela presenciou, tempo que era,
De indumentárias de santos e sem ação,
Que justificasse o transtorno ao mor dela.
Que mulher essa que traz nos braços a aurora,
E a semeia no tempo, a que as almas se vejam
A que os homens não errem os caminhos agora,
E não tropocem, a cair, sobre sus próprios erros.

NAENOROCHA

sábado, novembro 11, 2006



O MEU AMOR

Trazei a mim, sob olhares, escoltado,
Protegido, sequer pode tocá-lo,
O inofensivo e amanhecido orvalho,
O meu amor, que a muito tenho esperado.

Trazei-o em vestes de núpcias, de alvura
Em cor, em modelos, maior que as nuvens,
E mais notável que as estrelas em noites turvas.
Trazei-o, numa abóbada, uma carruagem escura,

Pra disfarçadas, passar livre, entre os desejosos,
Os que comigo disputam a bela glória,
De tê-la, menos que eu, ansiosos.
Por desfrutar da boca, do sorriso, imploro,

Desses protejam meu amor, gloriosa.
Não sou o rei, que ilegal, me posto,
Sou tão comum, quanto a rubra rosa,

As quais se acha em jardins, agora,
Que é primavera, e todo galho brota,
Sou apenas o que quer, de mim, a hora.
naenorocha

CANTO

Flores, mais lindas, bogaris e rosas.
Lírios e dálias, toda a flora enfim.
Vês, eu te peço, dentre as mais formosas,
A flor mais bela que se fez prá mim.

Almas perfeitas, querubins risonhos,
Santos querubins lá dos pés de Deus,
Desçam do empíreo,venham ser tristonhos.
A diva amada dos sonhares meus.

Aves do bosque, sabiás dourados,
Que à tardezinha nos comovem tanto,
Calem-se todos, vejam pasmadados,
Da minha amada o venturoso canto.

Virgens formosas, na natureza e graça,
De olhos bem negros e da dor do mares,
Vejam, invejosas, meu amor que passa,
Pisando em flores, dona dos meus olhares.

naenorocha

sexta-feira, novembro 10, 2006


BELA

Ei-la que passa, alegre e descuidosa,
o vestido de neve amarrotando;
e quem sabe? Talvez se vá lembrando
deste qeu a chama, divinal formosa.

E passa, e vai-se pequenina rosa,
entre os que vão e vêm sonhando.
Vendo-a, presumo, ou julgo estar fitando
a sensitiva terna e melindrosa.

Quisera ser a brisa olente e leve,
para roubar-lhe, docemente e breve,
milhões de beijos, numa guerra louca
,

Eu seria feliz mais do que nunca!
- Ditoso aquele que, entre afagos, junca,
de beijos uma tão formosa boca
.
naenorocha
BELA

Qual rosa branca de real candura,
Tendo, formoso, da inocência a cor,
Ela parece mais formosa e pura
- Na quadra bela e mais feliz do amor.

Qual louro anJinho que sorrindo canta,

Ao pés bendito do eternal Senhor,
Ela parece mais divina e santa
- Na quadra bela e mais feliz do amor.

Qual cotovia que, ao surgir da aurora,
Cantos entoa ao matinal rubor,
Ela parece mais contente agora
- Na quadra bela e mais feliz do amor.

Qual prece augusta, de doçura infinda.
Aos pés erguidos,com fervente ardor.
Ela é mais pura, muito mais ainda,
- Na quadra bela e mais feliz do amor.

Eu bem quisera em meu pobre canto
Tivesse em tudo festival dulçor,
Para saudá-la, num delírio, santo,
- Na quadra bela e mais feliz do amor
.

naenorocha

O MUNDO TODO

Poucas coisas me detém, ao desejo,
às vezes anseio ter cem, ao mesmo tempo
e desejo como uma fome de comida boa,
o que por vezes nem sei o bem o que seja.
definitivamente, pelo indefinido,
vivo de um pesadelo a outro,
descanso inquieto, como se pudera,
mas é a forma encontrada,
que alguém me mostrara
de frear a ânsia de tanto desejar.

Às vezes vejo fechadas todas as entradas,
que me permitem, meter apenas os olhos,
para a imensidão de coisas
a que me daria,
e que por tudo buscaria,
a juntá-las diante de mim,
contando, escolhendo, provando, comendo,
até que junte-se a mim, o meu desejo,
insaciado e o que escolhi, os mais desejados.

Furtivo, dou-me a essa insanidade,
de buscar, caçar, correr atras,
até que me perca, a fora,
mas dentro de mim a ilusão demora,
a me ignorar, e apenas me dar,
numa saída didática, psiquiátrica,
o que me poderia satisfazer-me em alegria,
e por contentes, apenas usufruiria,
daquilo que pra todos, há uma medida
.
naenorocha

quinta-feira, novembro 09, 2006


PENITENTE

Meu coração não espera
o que vem da terra,
o que vem do mar.
Meu coração não quer
velejar tormentas,
terras desbravar.

Meu coração só espera
que melhore o tempo,
que se acalme o mar.
Prá que ele sinta perto,
e esteja, assim, mais certo,
de que um dia ainda
encontrará, meu Portugal.
..................................................
Aos ventos obedeço, reverente,
e dou minh'alma leve, prá que levem,
aos céus, às naus distantes,
à mercê dos anjos,
para assim, me condenarem
no que devem.

Às chuvas o meu olhar entregarei,
e aceitarei o tempo bom de fecndar,
meu ventre ardendo,
o bem que há na terra,
e o sangue dos filhos que vou deixar.
naenorochamusicas/fados

PASSARINHO

Estou fazendo a minha parte,
passarinho,
estou vertendo água dos olhos.
Gota a gota, derramando, passarinho,
sem nem ter quem me console.
Estou fazendo dessa dor uma promessa,
que sem nem ver, já estou pagando.
E sem ter razão, que vida, passarinho,
eu canto ainda, o teu nome vou chamando.

Passarinho um rio indo na corrente,
é um destino, que só se acaba com a morte,
contravir é sacrifício, que só peixe faz,
perdido, confundindo o sul e o norte.

naenorochamúsica/fado

FARDO

São tantas vinhas e fados,
são tantas minhas saudades.
São tantos mares serenos,
são tantos ais, são venenos,
são tantas marcas no corpo,
tantas lembranças de um Porto.
Tantos destinos haviam,
o céu tantas terras cobria.
São mais os ventos que guiam,
que o meu coração que cativas.

Te vendo eu me alucino, e talvez seja,
o destino que eu ganhei, esta parada,
a distância que eu ainda não gostei.
ou a vontade de beijar-te
.
naenorochamúsica/fado
VIDA INTEIRA

Entrastes na minha vida
com o que tinhas;
e eu deixei-te entrar com o que trazias.
E já são longos tempos
a consumirmos nossos estoques,
de amor, de necessidade,
de proteção, de propósitos.
Nunca mais te imaginei distante,
também não me ausentei por um instante.
fomos cúmplices da bondade,
dos bons momentos, iguais,
na troca de ternura e amor, fomos jamais
imitados. Não há no mundo
um par tão perfeito, e tão feitos,
um para um, e uns para o mundo.
À nossa mira pássaros nos imitavam,
e se alimentavam por suas bocas,
um nutrindo o outro,
como fazíamos, regurgitando,
infiltrando-nos um dentro do mesmo corpo.
Tu chegastes na minha vida trazendo a tua,
e eu te esperei com a minha vida,
intacta, pra o dia de tua chegada.
Tão festejada, tão esquentada,
tão necessitada que, se não chegasses,
seria eu a te buscar, nas densas brumas,
por todas as veredas, encruzilhadas,
de onde eu estava.
Suplico-te amor, da minha vida toda,
alimenta-se mais de tua boca,
a minha já se ressente, e se resseca,
só em transcrever, de modo faltoso,
o amor que zelo, nutro e te tenho,
sem fazer-te nenhum favor.
naenorocha

FASES DO AMOR

A espontaneidade do amor estar
em se deixar admoestar como um plebeu,
a de curvar em prantos, a provar,
que já se deu, que já bebeu, que já comeu.
A vontade inquieta do amor consiste,
em não esperar a hora que foi marcada,
e ir adiante, brocando veredas, em riste,
o facão pavoroso à terra já demarcada.
A entrega do amor, solenemente é,
não só a cabeça, a asneira de Salomé,
mas o corpo íntegro, como se der,
estar-se se dando, a quem o quiser.
O dilúvio do amor prever-se, só
para um dia desses em que faça sol,
mas que não aqueça suficiente o nó,

que se derrama no chão como pó.
naenorocha

QUANDO

Quando amor de novo,
eu vou te ver,
não suporto mais tanta saudade.
Eu dei prá contar o tempo,
prá sonhar com o vento,
que o teu cheiro traz.

Quando, amor, de novo,
é que eu vou ter.
Teu corpo inteiro,
enchendo o meu abraço.
Aí, eu estarei no céu,
tirarei teu véu,
choro nunca mais
.
naenorocha
A HORA CERTA

O meu amor se ressente de uma falta,
Algo que inspecione suas atitudes,
Outro, que lhe ladeei, no tempo amiúde,
Alguma coisa que algo lhe faça

Até sofrer, que lhe leve ao grito,
Espontâneo gesto, que lhe aflija,
Ele não quer a vida ainda em argila,
Quer-lha, de motor ligado, movido.

O meu amor pressente um tempo farto,
Em que amar e já poder se entregar,
Se faça num relampejo, e quando chegar,
ele será o início do primeiro ato.

Transfere-se meu amor para outro lugar,
Vislumbrando ser por onde tudo passa,
E se arma inteiro, pra hora de atacar,
E num seleto gesto, tudo abocanhar.

naenorocha
DESPIDA

Ela se despiu do amor
Como quem se despe de uma roupa,
Vertical, deixou cair, depois pisou,
E no chão deixou amontoada,
Como se já houvesse o anjo
O seu zelador por perto,
E houvesse tempo de ainda recolhe-lo,
Arma-lo, em riste, ressuscitá-lo,
Ainda em condições de em outros servir.
Caber-se inteiro. E vivesse,
Se suportasse o jeito
Como fora arrancando,
Em pele, em carne, sangrando.

naenorocha

TEAMO

Te amo de tal jeito
Que se passam as estações e eu não conto,
Que passo pelo frio e o calor
E nem me cubro nem me dispo
Que aos céus nunca mais ergui meus olhos,
Não sei mais localizar as estrelas conhecidas,
Que a lua passa em suas estações,
E eu não sei quando ela vai, quando ela vem.
Te bem lá de dentro
Onde me esvaio em pensamentos,
Meus, de ti.
Perdi a noção dos dias,
E das manhãs ensolaradas,
Das tardes calmas, das ventanias.
Te amo a calar-me, quieto,
Como a esperar-te e já te tendo
Recoberta, sonolenta dentro do meu coração.
Sempre que eu amo esse trajeto é natural,
De andar fino pelas vertentes
Do meu corpo, adentro,
Te seguindo perto.
Fora de mim há um grande deserto,
No qual eu não me arrisco,
Palmilhar, seguir porque me esquece,
A vigília que em torno de ti faço,
Insone, o tempo todo que passo.

naenorocha

quarta-feira, novembro 08, 2006


VERTENTE

Chorar me lembra
o nascimento de um rio.
Que destino levará tanta água de sabor.
O mar é o lenço que absorve a correnteza,
sem saber bem da certeza
que levou tanto chorar.

Mas se prossegue
o coraação achando um jeito,
e a vontade ainda no peito,
de tanto se desejar,
aí não mais me lembra um rio sem destino,
me lembra a chuva pedida
que fará o chão rasgar.
naenorocha


URBANA

Meu amor,
traz o teu coração,
numa emergência,
que a paciência,
do meu viver, morreu.

Meu amor,
chegando na estação,
pega o sentido,
dos meus gemidos,
aqui já escureceu.

Passa batido,
longe das esquinas,
no vermelho,
corre os teus olhinhos nos espelhos.

Meu amor,
deixei na mesa, pão,
prá nossa ceia,
não me aperreia,
vem logo, coração.
naenorocha

TE AMO

Te amo.
sem nem saber do que se trata,
te amo por ouvir falar,
e dos mesmos sentimentos que enganam,
eu já estar me alimentando
Por isso digo te amar.
Te amo,
por que procuro até no escuro,
e na claridade imensa,
do sol a pino, ainda manhã.
Te amo por que de dentro de mim
ouço uns ruídos
como se estivesse de mim
já possuído, uma dor uma chama
que doem e queimam
que devoram e comem, sem matar.
Te amo.
porque às vezes me engana,
de quem necessito mais,
se de mim, já tão passado,
ou de ti, este presente,
que eu peço desde o primeiro natal.
naenorocha

POBREZINHO

Pobre de mim,
que ainda espero por um beijo teu.
Meu coração, na certa, não entendeu,
que aquilo foi despedida.
Pobre de mim,
que fico triste quando alguém me diz.
que te encontrou, de vida tão feliz,
eu era o teu pesadelo.

Só que quando eu me sinto assim,
tão pobrezinho,
eu desço a lata no fundo
do poço de mim,
e bebo do amor que é meu.
E quando eu me sinto assim,
tão machucado,
eu deito leve, no colo,
de amor, bem forrado,
e choro no amor que é meu.

Ninguém me ama como eu,
ninguém me engana como eu.
E nos revezes da vida,
a ferida do amor, doeu.
naenororocha


CANTO DOS PÁSSAROS

Tento dar forma ao canto dos pássaros,
e as palavras soam mal,
distanciam-se do som real,
do bico, do diafrágma,
e escorem como água,
pendendo dentro da mão.
Tento entender por que cantam os pássaros,
e sei qeu não é por que não sabem falar,
eles falam, eles calam
ele ouvem e repetem,
concordam e não condordam,
dão-se cheios, batem asas vão-se embora,
Tento saber o que os passaros falam,
antes do canto, já ensaiado,
antes que o concerto comece,
mas eles tão dispersos,
conversam, conversam,
não escutam, não se preocuam
com quem está já por falar, gritar,
louco, para como eles, cantar.

naenorocha


SE O AMOR CHEGAR

Se o amor chegar
não me voltarei a ele um,

nem num olhar somente,
virarei-lhe as costas,
farei-me em postas
por todos os lugares.
Refugiarei-me, num campo só,
em algum mosteiro,
depois desse pó.
E se ele seguir-me,
brincando ou querendo,
eu vou me escondendo
dos olhares seus.
E o que ele fizer, na intenção de mim,
serão flechas curvas,
sem alvos, sem fim.
Já me debrucei, sobre isso pensei,
como tudo cancã, eu por mim cansei,
e esperar-lhe só, mal acompanhado,
O amor não se dá, sem uma cilada.
E andarei mais vezes, por outros lugares,
onde nem seu nome se ouviu falar.
Se amor chegar, como uma doença,
que se dorme bom e se amanhece apenas,
eas não se levanta, nem mesmo se espanta,

Como algo batendo à porta.
naenorocha

TERESINA

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