domingo, março 18, 2012

QUINTAL

O meu mundo é do tamanho de um quintal
E pela vida toda eu não atingi seus limites.
Tem um poço que quando jogo os ouvidos
Ouço a saparia orquestrar a Ave Maria
E ouço Deus, e o vejo catar laranjas,
Futucando as verdes que caem maduras.
Selei cavalos com embira de tucum,
Amanheci em campos distantes das cercas,
O mundo onde vivo, vive a amizadeDe todos os meus compadres
Libertos do celibato, que derribaram as saias.
Pindamonhangaba, Ilhéus, mangues sem fim,
Incluídos em mim posseiros de todas as minas.
Mostruários de ouro por todos os dentes,
Quando não escurece todas as possibilidades.
Extrair ovos sob a galinha quieta,
Comer com farinha, enrolar uma omelete.
Falta-me ao mundo que eu ocupo inteiro,
Já pelo cansaço, desse mundo imerso em mim,
Meu coração gritou, ontem, e hoje repetiu
O mesmo brado: quer uma companheira,
Uma artéria cheia de sangue todo fino,
Que ainda sou o arrimo deste infinito inteiro.
Aqui cabem luas, que caminham às bandas,
Um sol espumado pelas nuvens de banha de porco
De mexidas loucas pra chegar ao ponto.
Um sabão de uva, que primeiro borra
E só depois clareia. Mas clareia tanto
Que não existe branco, alvo pelas golas,
Das minhas camisas lavadas de noite,
E que demanhãzinha já me acomodam, dentro.
São três moradores deste mundo imenso,
Eu, Alemão, o meu cão sestroso, e Flora um sabiá
Que se combinam e giram à hora de eu levantar.
GINA


Amo, que sinto, desando.
Gosto de ter em meus braços
Sempre minha flor dormindo.
Ela é uma obstinação minha
E da roseira ainda pra rachar-se.
Vejo a mulher e me provoca a rosa
Acochado o meu coração.
Primeiro veio o botãozinho
Logo se abriu num soninho
Minha delicada, tão mínima
Todo diamante é assim.
Porque não haveria de ser
O amor, todo de estimação
E Ela além de ser muito mais que gente
Por aí, chamo meu amor, coração
Só do batente pra dentro
Meu coração a tem nos braços
Pra onde ela pousa subindo
Amo esta mulher pequenina
Como já a botei em minha sina
Amo esse anjo encantado
Amo essa força de cima
E para que todos sabem
Desse amor que a mim anima
O nome dela confesso
Eu mesmo não sei qual daria
Mas quando a vi no galho
O mais alto da rosa-mimo
Comoveu-me o nom Gina.





GUERRICA

Com a investida das feras
E a procissão silenciosa das formigas
O predador toma distância de proximidades.
Esperneia,
Faz como quem vai desistir,
Hipnotiza.
E já se aproxima de mim
Sou um Coliseu, só ruínas
De espada e esporas,
Num lastreio podre sob os pés.
O inimigo é uma fera larga
E eu que pretende ser em minha defesa
Nas intenções de sinais, difíceis.
Na fricção do joelho na outra perna
O lamento do golpe acertado.
E o tempo conta. Desce a linha da sombra
E vai ao rival crescendo e eu descendo.
Armas que não se negociou,
Surgem e se renova o seu claridade.
Eu me enfraqueço, e saio,
Esvoaçando becos, olhando pros lados.
E não fui ferido mais, como em mim dói.
É preciso lutar contra este deus mortal,
Que não se cumpre, por gestos nem palavras.
O que faz de mim,
Ou o que permite que dele, se faça.

PASSEIO NO ATEU MAPA


Gosto quando o meu corpo roça o teu.
Tão bom as temperaturas repousadas
Quando vem o tempo com outro renque
De passistas.
Eu admiro o teu corpo e em mim
Se faz de dor quando te afastas
E o que mais me diz do teu corpo
São seus alcances, suas aduncas de ir e desandar.
Pois de me proferir o teu corpo
Ruboriza o meu, de conflagrar no fogo
De todos os arredores permeados
Dos cuidados, que amor não contrasta.
Gosto de apalpar o fundo do teu corpo
De  beijar-te aqui ali
Ir voltar trazendo o gosto
Dos teus jardins dourados do mar.
Gosto de afundir-me com meus olhos
Nos pedaços moles
Colinas brancas e coloridas.
Gosto de pacientemente alancear teus cortes
Do seu dissimulo ímã e o que der que freme
Mitra teu corpo dividido por um.



sexta-feira, março 16, 2012


CAROCHINHA


Quando eu era bem menino
Gostava de ouvir estórias da carochinha
De não bater pestanas,
Engraçado, como a vida se protege
Como o tempo passa
Por tantos temerosos
À vezes chegam a marcar a alma.
O medoA é companhia dos animais
Quem não tem medo
Fica sem comer
E sem dizer palavra alguma.
Apenas os meninos
Por um período muito curto
Enfrentam o medo.
E renegam sua companhia,
Por que morrem de medo
E se protegem no adulto
Fitando os seus olhos e catando gestos
Preparado para correr
Se o adulto se movimenta.
Quando somos meninos mesmo
Temos medo das estórias
E não tememos a carochinha
Hoje pretendo contar
Os pousos dos animais
Ver suas peles e penas multicores
A deduzir que tenho o mesmo medo
Das estórias da carochinha!

naenorocha*

DEPENDE

Depende do dia
Depende do instante
Depende que tu queiras
Depende Que recuses
Depende se esta força é de dor
Depende se esta fraqueza é de desestúmulo
Contrariado que estou mas não me amarás.
Depende como dou meu coração, e não amei
Incompleto estou se me falta isto
A presença dos arcanjos que me protejam
A necessidade da hora de tomar meus remédios
A carência do meu peito sempre limpo e todo
Depende de nós
Dependendo de mim, se não me feri
Dependendo de ti, que se acaso doído
Me confortastes por tuas intensões reais.
Figura esta estampa de um dia de sol
Que não que tem mais nuvens
Porque a dita do sol é uma realidade uma amostra.
As nuvens, não, alçam vôo, e distam de nós
Mas enfeitam mais que o sol
Nas que se não fosse a luz espargindo em flocos
As nuvens não seriam nubentes e lindamente
Seriam retalhos de algodão
Coisas que ao coração, lembra venturas e amarguras.
Depende de que seja entendido o poema
Depende da vontade de lhe agradar
Depende de deixar o poeta eufórico
Com sua caneta marcando passos.

sexta-feira, junho 24, 2011

QUALQUER MANEIRA





Você já amou como amam os cães?

A quem as carícias em si não bastam

Pegar e beijar é pouco.

A repulsa, de quem deseja é suportável

E eles tentam tantas vezes precise... sem desistir

Nem pensar em sair dos derredores

E neles inflama mais a verve do amor

Até se mordem, como se indispusessem

Como se o amor perdessem a comoção.

O amor entre um cão e uma cadela

É como uma luta flutuante

Uma nuvem batendo contra outra

Causando os relâmpagos, faíscas de gozo.

Assim os cães se amam

E se amam tão intensamente, inteiros

Que depois do rito, os gritos não os separam

É um cordão umbilical, feito

E agora nascendo.




Eu queria amar como um cão

E soltaria uivos ao ver minha amada

E a cheiraria, lamberia todo o contorno do seu corpo

Até que ela me desse em troco

O mesmo amor que tenho guardado

Me desse a flor, a flor do meu espinho.

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naeno*comreservas

quinta-feira, junho 16, 2011

TUA TEZ

Existe uma infinidade de coisas que estão em ti
E que outros não possuem.
Mas isto é o básico da individualidade de cada ser deste mundo.
Assim não te esclareço nada
E posso até te deixar aflita
Porque em ti eu descobri tantos sinais
Tantas estrelas
De tua pele meio exposta.
Porém Não cabe a mim proceder de forma tão indiscreta e telhudo
Porque devo ter passado assim
Uns anos-luz, antes de tua concepção
Até esta formosura peça de mármore
Que não se desgasta
Posta à minha frente.
E eu que te via por tua feitura
Vendo os caprichos de Deus
Quando novamente ressalto bem pertinho
Buscando um sinal mal disposto
No perfil do teu rosto.
Quando mais uma vez convencido
Ele te punha ao sol para pegar a cor
O sangue, a maquiagem natural
Que foi definitiva em ti.E porque eu falo assim
Com tanto destaque para tua pessoa.
No mínimo eu não mentiEm nada, tudo vi, tudo sei..



Verdade!



________naeno

sexta-feira, junho 03, 2011

MÁRIO QUINTANA

Escrevo olhando para o céu
O papel é da mesma cor azul
Verde, a caneta, da esperança escrita
E também desenho um pássaro ao léu.

Estou curioso por ver a paisagem enfeite
Misturo tons que me arregalam a visão
Buscando sempre as mesmas descobertas
O céu, é inútil querer dar-lhe outros efeitos.

Brinco com a luz incidente na folhagem
Que pinto e bordo, da cor e do cortado
E que propunha, a poesia, enfeita-se
Desses desmandos de nova linhagem.
Ando volátil como o ar rompido
Que acolho e beijo em minhas mãos aos poucos
E me permito voar com ele aos pedacinhos
Aí nessa folha como tenho sido.
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naeno*com reservas de domínio

sexta-feira, setembro 17, 2010



CHORO PRA CARALHO

Eu não choro de uma vez, um único pranto.
Choro aos pedaços, que não se estanca
E quem mede o tanto é o que despeja
É o poder de jorro, a aflição do sentimento
E o sangradouro do coração.
Quanto mais lembro o que já esqueci
Mais me respinga as vestes, águas que se invertem
Em doçura e sal, em candura e mal.
E eu choro, pelos olhos, e narinas
Me molho inteiro, como um dia de janeiro.
Para o que já previam um temporal sem controle.
Choro pelo choro, das lágrimas que vejo
Pelas que escorrem e eu pressinto o veio
Que é infindo, deságua não sei onde
Mas em algum lugar do mundo
O que verti terá valido, como água
Como alívio da sede dos sequiosos
Choro pelo que vem, ou vai, e pelo que nem sei.
Choro pelo que imagino e não vejo
O que imagino existirem, por ai, como eu
Corações mais férteis, lugares desertos
Quem ame mais que eu
Pois não se chora e se dissolve pelo mesmo mal.
E o que provoca essa explosão interna
Dos leitos sob a terra, lágrimas de olho
São as dores, são as dores, são as dores.
São os amores, são os amores, são os amores.
As dores que causam os amores quando doem.
Os amores que causam as dores quando doem.
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Naeno*comreservas

sexta-feira, junho 11, 2010

AS BOMBAS

Vai-se a primeira bomba projetada
E vai-se outra, outra e outra em recorrência
E se estilhaçam no meio de habitadas
Uurbes, Países, em demência..

As retardadas ogivas que se demoram
E só agora as despertadas, vão
Partem como aves em vôo se entroncam
No desperdício caminho da visão.

Até os corações abotoados ocos
Montados sobre o dorso do mal calisto
Não retornam nunca e fazem pouco

Dos que desdenhados alvos ilícitos
Tendem mesmo à morte o corpo
O bojo ajuntado de farelos iscas.
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naeno*comreservas

terça-feira, maio 04, 2010


MÚSICA

Eu quero fazer uma música
Daquilo que tem doído
E que eu me lembre de tudo
Como lembro o teu sorriso.

Que a tua boca me prove
Na vida o que mais preciso
Que minha boca te sorve
Toco no teu paraíso.

Em mim pouco, mas comove
Muito já tão esquecido
Tudo o que pranteio escorre
Em rios e tenho descido.

Como garranchos e escoras
De cercados decaídos
E esta letra que chora
Lembrando-te, enternecido.

Quero que essa música toque
Em tudo que tem perdido
Eu quero que te retoques
A maquiagem mexida.

Que te olvides se choras
Porque o que bebo é só isto
E tenho tomado porres
De amargos tão esquisitos
Tenho lembrado piores
Estações já despedidas.

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naeno* com reservas

terça-feira, março 02, 2010

VISÃO

Deus concedeu-me dois olhos
Definida a função de ver
De contemplar
Uma coisa que não é um ser sublime
Que me apraz olhar
Mirar o fundo dos teus olhos breu.
Ensimesmando-me, diante de toda tua beleza.
Não falo de uma campina verde
Pingada de flores multicores
Como se fossem pedaços de ouro.
A visão que tenho é a antecipação
Das sinecuras caídas do céu.

Talvez eu já tenha mesmo ido para o lado Dele.
Este é um feitio de santa
Uma santa cujos encantos
De beleza serenidade, ternura, bondade.
Que eu adoto num desleixo para com as outras
Que não se servem desse esplendor
Deste ser merecedor de glórias.
Parece, destes a ela, somente aos olhos dela
O poder da contemplação de Vós.
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naeno* com reservas de domínio

quinta-feira, janeiro 28, 2010

LÁGRIMAS

Às vezes ocorre de eu chorar pelos dedos...
Antes das nuvens se formarem
Ou de qualquer tristeza prenunciada.
A tua presença adia a formação do tempo.
Choro pelos olhos, em raro momento.
Mais pelo peito, profundo reserva de nós.
Pela garganta, o veio, de onde verte
A irrigação dos olhos
O plantio dos poros
A sequidão de amor.
Choro chegando, choro saindo
Choro chorando, choro sorrindo.
Ás vezes choro pela minha testa
Quando se atesta um tempo de chorar
E me enrubesce a face, como ao céu.
As nuvens quaram seus vestígios enxugados.
Chovo que cantam os sapos...
Coisa que nunca seca.
Cessa o desejo, cai um temporal.
E o que dizer se já foi assim
Desde que mirei os teus olhos verdinhos.
Quando beijei tua boca carmim
Porque é que fostes de ausentar de mim.
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naeno* com reservas de domínio

domingo, janeiro 10, 2010

LINDEZA

A vida é muito bonita
E é bonita a rosa com seu cheiro e sua cor.
A borboleta é linda
É de uma beleza a mata entardecendo.
É lindo o amor demonstrado, puro
É de uma lindeza os olhos que o constata perto
É bonito o nascer de cada estrela
E é esplendoroso quando chove serenoso.

É bonita a sutiliza de uma mulher
E é linda a ave cantando na copa da árvore.
É linda uma mulher africana com suas vestes estampadas
E é bela uma mulher ocidental sob seus saltos altos.


É de encher os olhos uma criança nascendo
É de merejar o olhas o rosto da mãe, preparada para amar.
É notável o entardecer e a relva verde
E é espantosa a beleza do gado quieto pastando.
É escandalosa a lindeza dos olhos de quem se ama,
É notável o momento em que os olhos param um para o outro.
É bonita a consistência da força de Deus,
Como são lindos os seus anjos benfazejos.

É bonito se olhar a fundo, que em tudo tem beleza
E a lindeza está em se olhar e ver tudo bonito.

E bonito tudo
Como é lindo o nada em seu momento de

É bonito o cheio
E o vazio explícito depósito de algo bom
É bonita a pureza,com que falam os homens, dizendo a verdade,.
E é linda a verdade esclarecedora do homem íntegro.

É bonito o terço
É linda a ladainha
E é lindo o sermão do padre versando Deus. .
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naeno - com reservas de domínio

sábado, janeiro 02, 2010

SONHEI

Te puxei pelo coração
E encostei a tua boca
No meu regaço beijei
Os teus cabelos de gosto
Da pessoa que eu amo inteira.

Apago da tua visão
Meu batom carmim
E te verei campina
Verde toda direção
Entre os montes cimo
Dos meus seios.

Eu sorvo toda a tua pele
Toda, tudo tão inteiro
E tudo será como eu quero
Como um beijar primeiro.

E onde tu tocares eu
Será como Midas
Mas não será o duro ouro
Vais ser minha comida
Te elevarei ao poço
Da minha vida
Rainha por um tempo bom
E eu terei caído.

Amor, amor, amor
Te chamarei, querida
Me sugarás teu beija-flor
Todo equilíbrio
Uma canção dos ditos
De Moraes Vinícius
E musicarei os versos
De Neruda, em vida.
NAENO - com reserva de domínio

quarta-feira, junho 03, 2009

APOCALIPSE DE FOGO E ÁGUA

Deixei o fogo aceso no fogão
Derreteu-se todo o gelo que havia na geladeira,
Compôs-se um riacho, descendo a soleira
E formou-se embaixo o seu rio.
E os peixes que estavam na frigideira
Ressuscitaram com o domínio das águas,
Que naquela hora materializava o começo
De outro mundo, com mais densidade.
A minha casa declinou-se, pra que eu voltasse
A ter espaço, e continuasse no meu jantar
Tão arrastado.
Eu fui pescar novamente, e o rio era perto
Os peixes conhecidos, comiam na minha mão
E eu com o desejo pirado de comê-los também.

Deixei a torneira aberta enchendo um balde.
E se rompeu a pia de água, a apagou o fogo
E criou-se um regato que tomou um leito,
Caminho da porta da rua,
E lá nas valetas, já os meninos esperavam
A passagem do rio, um rio fundo,
Denso nos seus burburinhos,
E o mundo encheu-se dessa bica,
E eu impulsionador da idéia desse mal-estar,
Um bem-estar em minha alma se deu,
E tudo foi o que anteviu Deus!...
O mundo continuaria em fogo e água.
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naeno*com reservas de domínio

sábado, maio 09, 2009

O BEIJA FLOR

O beija-flor beija a flor
E pensa que só ele a beija
Eu mesmo em ver uma rosa
Fico com a boca um desejo.
E em quantas delas cheguei primeiro,
E deixei-as molhadinhas.
O beija-flor pensa nas flores
Como se Deus a ele todas deu.
E elas já são de tantos
Que desejam os beijos seus.
A rosa é que a todos beija,
O beija-flor poderá ser o primeiro.
Mas não a urtigão-se em cheiro,
Em amor que a boca arpeja.
Cantos da boca, ponta dos lábios,
Rosas tão roxas, flores encarnadas.
A boca ainda não distingue,
De que parte o gosto é estampado,
E o beija-flor de longe sente,
Se aquela flor já foi beijada.
E existem outros beijadores,
Como abelha, tisiu, vim-vim banana,
Mas o beija-flor se troca
Pensando que algum engana.
E acha que toda flor
Foi feita só para o seu bico.
Deixa de prosa, tico-tico.
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naeno*com reservas de direito

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

MATULÃO

Vivo das lembranças
De levantar do chão meus pés andarilhos.
Nessas investidas, quase muito eu vi.
A florada no seu tempo certo,
E escutei com displicência o argumento dos homens
Duvidosos das chuvas, de língua seca.
Morro das lembranças:
De apanhar do chão
Meu matulão cansado da estrada.
E eu um homem desertificado
Rezado, benzido pelas sombras boas.
Cacho de alecrim, para espantar mutuca,
Deixando um cheirinho
Que a elas logo assusta.
E de noitinha ouvir a sinfonia mais desencontrada
Da saparia regida do maestro ensaboado.
Araras no topo jogando migalhas
Que até eu, com a fome, que chega às mesmas horas,
Peguei e comi lembranças do chão.
Adoeço só de ver as estradas encobertas
E um céu descoberto, sem uma nuvem que se pise.
Quanto mais me disto desses lugares meus.
____________________________
naeno* com reservas de domínio

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

MÁRIO QUINTANA

Escrevo olhando para o céu,
O papel é da mesma cor azul,
Verde, a caneta, da esperança escrita.
E também desenho um pássaro ao léu.

Estou curioso por ver a paisagem enfeite
Misturo tons que me arregalam a visão,
Buscando sempre as mesmas descobertas,
O céu, é inútil querer dar-lhe outros efeitos.

Brinco com a luz incidente na folhagem,
Que pinto e bordo, da cor e do cortado,
E que propunha, a poesia, enfeita-se
Desses desmandos de nova linhagem.

Ando volátil como o ar rompido,
Que acolho e beijo em minhas mãos aos poucos
E me permito voar com ele aos pedacinhos
Aí nessa folha como tenho sido.

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naeno*com reservas de domínio

quarta-feira, dezembro 03, 2008

tela do pintor AMARAL

SIMPLES

Nunca construí uma poesia
Como quem faz uma casa de praia
Sempre, ela pisa onde quer.
Esqueci-me das palmeiras de babaçu
Postas na área de entrada
Fazendo um caminho
Que por gentileza fica no chão.
Nunca premeditei uma poesia
Como quem virtualisa um amor alado
Desengonçado e trabalhoso.
Como o que sentiu fazer
A primeira maravilha do mundo.
Nunca imaginei a poesia
Como quem idealiza um amor
Não amo as poesias que faço.
Antes, às vezes as odeio e rejeito.
Elas me consomem tudo, o tempo,
Todo o amor de que disponho, traço.
As poesias que têm saído
De meus inventos,
Das rimas que persigo, imerso
Vem do universo.
Vem como chuva
Vem como anjos que voam ao léu.
Por isso haver tido delas
O conforto nas noites frias,
E nas noites de calor
O abanico de um cacho de flores.
Por isto eu me arrepio, choro...
Nada, é só uma troca de cortesias.
Uma retribuição do que de mim
Dei de coração ao mundo.
_________________________
naeno* com reservas de domínio

sexta-feira, outubro 10, 2008

MEU NADA

Lembro da terra que me materialuzou
Relendo sua história num papel de pão.
Lá nada se via, nada se ouvia.
Nenhum barulho, nem silência
Chevgavam ou por uma boca ou por uma mão.
E num saudosismo de poeta esquecido
Sinto doer meu coração já tão distante
Quatro, cinco casas, dez, vinte gentes
Povoam ainda hoje minha cabeça
Como se a morte naquele lugar agonizante
Nunca passou e ninguém se foi.
Podia já haver morrido.
Lembro que ààs seis horas da tarde
As cigarras cerziam segregadas
Seus cantos de dormir.
E as mesas se floriam
De toalhas estampampadas , de muito uso.
Que viravam lençóis
Depois mudavam para vestidos
e se puíam e ao monturo serviam.

Lembro desse lugar
Pelas notícias que traz minha alma
Todos os dias, quando chega para o pernoite
E fala dormindo, e me diz: de Arlindo, findo.
E se refere aos de minha idade
Que ainda não saíram para conhecerem a cidade
E ainda se submem aos golpes
Da enxda amolada na pedra demanhãsinha
Ao machado que por vezes,
Errava o opau e dava com a canela
Triste lugar. Triste situação.
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naeno*com reserva sde dom´pinio

domingo, agosto 31, 2008

TRAMA

Fostes no vento a folha mais leve.
A que meu olhar descreve,
Afugentada do meu abraço.
A guilhotina, a faca acima,
Os atônitos olhos não veriam em cena,
A sala fechada, nenhuma fresta, se via,
E corria a fita, o planetário inteiro.
Pelo sangue soube-se
De quem era o pescoço,
Um esboço feito na areia,
De prantos e gemidos, triturados.
A agonia das horas,
Torciam contra e a favor
Do desfecho excomunal,
Do punhal posto na mesa.
Ganhara o mais munido,
Logrou a munição de um novo inverno,
Os que arrebentam no cadafalso
Sozinhos, levando a história.
Em seus solitários caminhos.
Um herói da guerra inaudita,
Dos planos de partilha
Das vestes daquele só.
Que já chegara nu
Coberto dos olhos cegos
Das mentes vazadas
Da mesma visão,
Do pó, do chão.
O veredicto foi simples
A medida da tarde não previa
Esta enfeitada teia prisioneira
Da aranha, pelo céu.
_____________
naeno*com reservas de domínio

domingo, março 16, 2008

VIDA

Depois que a vida chorou pelos meus olhos
E soprou a minha boca pela boca dela
Temos sido assim amantes
barulhentos
Quando em nossas encruzas
Mostramo-nos os dentes.
Depois de fincada no chão uma semente,
Pelas mãos dela, e eu era um silente
Pequeno grão suado por sua mão fechada
E ali já germinava, e ali eu
florava.
Aflora agora uma vida em dormência
Sob os caprichos dos seus pés, fui
Calcado, e transplantado tantas vezes
Por não ser o enfeite pra sua j
anela aberta.
E eu não pergunto de mim a ela
Não incomodo a dona dos arados,
E o que quer de mim, nessa lavoura úmida?
Que eu chore, que me decline.

Serão meus frutos de sabor ruim,
Que ela não arreda o seu olhar,
E quando eu digo gosto desse canto,
Ela me espanta apontando um outro igual
Faz-se arrendatária
, também de mim.

Eu me iludo que com os outros.
É mesmo assim:
Por ela transplantados, fustigados,
Enxertados,
lavrados.
E que não têm sentido
Os seus caprichos arcaicos.
Tem tudo acertado, e sabe
o que faz.

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Naeno* com reservas de domínio

quinta-feira, janeiro 31, 2008

DESAFORTUNADO

Eu conheci a casa de um desafortunado
Nela vivi quase toda minha vida,

Apanhei gravetos para os invernados,

Puxei gavetas e guardei retratos,
Um arquivo morto de mim retirado.
Eu andei por dentro da casa cumeada
Tropecei pelos atalhos, cadafalsos
Troquei uma vida, que me dera, inventada
Por uma que eu vi de perto, andando enfalço
Fui o primeiro desordeiro do motim.
Não tive nunca uma gota de raiva.
E foi assim, andando, dentro e fora dos pântanos
Que hoje dou graças à sorte fora de mim.
À imaculada virgem, mãe da Conceição
O meu amparo, de quem mais eu vi nos olhos,
A minha amada, o tempo todo cortando a rota
Dos desamados, sempre me trouxe por sua mão.
Fiz pisoteio até o cultivo das pedras guardadas
E vi a festa da colheita das formigas,

E disso eu disse, com o coração e alma aflitas:
- Não me descanso, mesmo quando estiver sentado.
E da lavoura que os cupinzeiros demarcavam,
Das espigas de milho bem debulhadas,
Pus o sabugo como mastro da bravata,
E lutei só, com Conceição, nela amparado.
Olha-me Deus, no que escrevi,
Eu relatei a minha vida e Vos traí,
Era um segredo até o tempo por vir,
Até cansar, e cansado, aqui cair.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

CONTADOR DE ESTRELAS


Às vezes eu acordo pra ver estrelas
E choro vertiginosamente.
E minhas lágrimas brilham
E meus olhos se enchem de astros flutuantes.

Sinto dores no silêncio
E silencio tudo que em mim é barulhento
Traiçoeiramente acordado de um sono escuro
Mergulho copiosamente por entre belezas, acordado.
Transtornadamente imergido na noite.
Todas as dores estão sobre mim
Tudo em mim padece, sofre e se esquece
Que não acordei por querer,
Que ninguém busca a brasa acesa
E pisa sobre ela a encandear-se
Porque a carne se mostra
Em uma triste revolta e se expõe,
Paradoxalmente, ao sofrimento.
O meu peito na dura opressão
Não se contenta com a brisa fria da noite.
Marcas de ferro e de fogo,
Prodígio gozo de uma alma penitente.
E o meu espírito partido
Vê-se entristecido,
E não se abstrai com o que tem de sofrimento.
Como uma presença que não me distingue.

terça-feira, dezembro 18, 2007

CHORO DA ESTRELA

A primeira estrela que eu vi esta manhã
Estava chorando.
E por sua dor impregnada em mim
Declinei o meu rosto e chorei também
E eu só vim perceber
Porque pensei
, chover
E dissimulei: chover do nada
Nenhuma nuvem
Foi quando a vi soluçando e triste.
Os pingos de suas lágrimas
Faziam esta chuva
Uma chuva de gotas contadas
Mas que o chão todo
molhava.
Os olhos de uma estrela
Não são como os nossos
Que sequer dão para lavar o rosto
Elas lavam a vida inteira
Elas comovem o mundo inteiro
E assim todos, como eu, choram.
Choram da estrela
chorando
Choro da do que suas lágrimas
Vêem prenunciando.
Tomara seja a solidão do tempo
Porque todas as outras estão imersas
No escuro, um domínio
protetor.
-Não chore estrela
Não chore
A companhia dos homens não te basta.
A nossa comoção pelo teu infortúnio
Não te alargam a visão de uma manhã venturosa
Acompanhada de todas
De todas as noites, o lindo
estrelar.
_____________________________________
naeno* com reservas de domínio

quinta-feira, novembro 15, 2007

OCISAS DE DEUS


Coisas de Deus...

Tanto amor em mim guardado

E o meu rosto procurado

Por alguém que não me reconheceu.

Minha saudade de vê-la

Meu coração enfeitado

E como andará o dela

Por certo muito mais ornado.

Coisas do destino

Não ter em mim o que ensino

A quantos não sabem deter

Na mão, uma flor, um querer.

Já falo: não amem as borboletas

Elas são amantes do vento,

As rosas do beija-flores

As orquídeas das janelas.

Coisa de quem não tem mais

Do desencontro um sinal

A marca dos pés que procuro

Com o corpo todo, calcados;

Coisas de quem passa olhando muros

Vendo inscrições noturnas,

Quando este tempo, os sinais

São, pelo bem do amor demarcados.

Coisa de Deus

Esse novelo em meu peito

Embara


quinta-feira, outubro 04, 2007

FAVORECE

Ela me ofuscou com seus faróis em luz alta
E eu coladamente passei rente ao lado dela.
Mas nenhum grito de amor,
Se não eu já ficava
Ainda hoje estava com os meus olhos de choro.
Olhando a lua, pensando nela,
Vendo as estrelas, querendo ela,
E ela um jato lançando fumaça em mim.

Ela me confundiu com um pássaro qualquer
Que dorme cedo e voa a hora que bem quer,
Mas nenhum gemido de amor,
Se não eu tinha ido,
E até agora estava, seu, comprometido
Bem recaído, por esse amor tão delicado,
Cortando chuvas me enrolado em toalhas,
Vendo, mexendo a minha vida num varal.

Acostumei-me a não ser visto de perto
E me constrange o olhar, quanto mais belo.
E o dela pega na memória,
A maltratar de amor assim.
Ainda agora eu pensei nela e veio à flora
Umas tonturas, um desejo de entregar
O que possuo, o que vou ganhar
A vida tem sido bem louca em me amar.
QUERER

Querer e poder são por dois olhos
Uma visão do extremado
E não do fim
A beleza que encanta e tanto eu olho
É o que vejo em em ti
E não há em mim.

O ter e o querer são, por prisão
A razão de fazer-seSem ter fim:
O esplendor de uma rosa
Quando ela abre
Os teus olhos também
Se alargam assim.

Bem dizer, mal dizer eternamente
Sempre o não
Quanto mais eu te falo sim
O suor do teu corpo
Inteiro brilho
De um brilhante lapidado de mim.

O fazer e o benzer a obra feita
Algo bem findado assim
O artista que sonho e que não vejo
Nas rajadas do vento no capim
Há uma cobra que se mexe quieta
No ritmo que danças pra mim.

quarta-feira, setembro 26, 2007

DESCOMPENSA

Pena que de tudo ruim
Muito pouco evapora,
E resta-me a auto-proteção
De tapar os poros,
Inutilizar as mãos.
E o bom, o que a gente ver
E se apetece.
O peito o coração,
Sempre estarão direitos,
Infringindo a contra-mão.
Alguém me assustou dizendo,
Algo terrível aos meus ouvidos,
E tudo que é belo é sentido,
Débeis para uma investida.
Capazes de nos deixarem
Famintos com o coração e o peito a roer.
E sem olhar que tudo ruim,
O opróbrio, o indesejado ser
Que nunca se evapora,
Ficamos sós pra nos defendermos.
Ai os bons dias voláteis,
Vão lá, no cosmo encantando,
Cantando, a canção de esquecer,
Esquecendo, o bem de fazer
E fazendo, quem o amava, sofrer.

sexta-feira, setembro 21, 2007

ESTRADA

Esta estrada onde eu já passo por muito tempo
É nela que eu andarei, sem que ela finde.
Nela eu não mais me assusto
Tudo conheço, de quase tudo dela eu sei.
De vez em quando me e
spanto
Mas até frente do espelho me assusto,
Mas quando abro os olhos,
Porque as vezes insisto
Em não parar e não dormir,
Vejo a mesma companhia, e sou sempre eu.
E os meus pés não se enganam ao pisar,
No leito desta estrada, onde tanto deixei,
Por ela eu sigo, e não voltarei.
O que deixei cair, ficarão lá onde estão
E se larguei, jhá não me interessam mais.
Voltar não se justifica,
Porque o que eu já andei, deixei, não olhei,
E andei sabendo que à frente é onde estão
Meus encontros assinalados, inevitáveis,
O que juntarei.
Não sou de juntar.
O que pegarei pra fazer o que for
Pra me espantar, de surpresa
Para eu andar com clareza
E tudo, amando, pegando,
Tudo um dia deixarei nesta estrada.

TERESINA

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