Quarta-feira, Junho 03, 2009

APOCALIPSE DE FOGO E ÁGUA

Deixei o fogo aceso no fogão
Derreteu-se todo o gelo que havia na geladeira,
Compôs-se um riacho, descendo a soleira
E formou-se embaixo o seu rio.
E os peixes que estavam na frigideira
Ressuscitaram com o domínio das águas,
Que naquela hora materializava o começo
De outro mundo, com mais densidade.
A minha casa declinou-se, pra que eu voltasse
A ter espaço, e continuasse no meu jantar
Tão arrastado.
Eu fui pescar novamente, e o rio era perto
Os peixes conhecidos, comiam na minha mão
E eu com o desejo pirado de comê-los também.

Deixei a torneira aberta enchendo um balde.
E se rompeu a pia de água, a apagou o fogo
E criou-se um regato que tomou um leito,
Caminho da porta da rua,
E lá nas valetas, já os meninos esperavam
A passagem do rio, um rio fundo,
Denso nos seus burburinhos,
E o mundo encheu-se dessa bica,
E eu impulsionador da idéia desse mal-estar,
Um bem-estar em minha alma se deu,
E tudo foi o que anteviu Deus!...
O mundo continuaria em fogo e água.
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naeno*com reservas de domínio

Sábado, Maio 09, 2009

O BEIJA FLOR

O beija-flor beija a flor
E pensa que só ele a beija
Eu mesmo em ver uma rosa
Fico com a boca um desejo.
E em quantas delas cheguei primeiro,
E deixei-as molhadinhas.
O beija-flor pensa nas flores
Como se Deus a ele todas deu.
E elas já são de tantos
Que desejam os beijos seus.
A rosa é que a todos beija,
O beija-flor poderá ser o primeiro.
Mas não a urtigão-se em cheiro,
Em amor que a boca arpeja.
Cantos da boca, ponta dos lábios,
Rosas tão roxas, flores encarnadas.
A boca ainda não distingue,
De que parte o gosto é estampado,
E o beija-flor de longe sente,
Se aquela flor já foi beijada.
E existem outros beijadores,
Como abelha, tisiu, vim-vim banana,
Mas o beija-flor se troca
Pensando que algum engana.
E acha que toda flor
Foi feita só para o seu bico.
Deixa de prosa, tico-tico.
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naeno*com reservas de direito

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

MATULÃO

Vivo das lembranças
De levantar do chão meus pés andarilhos.
Nessas investidas, quase muito eu vi.
A florada no seu tempo certo,
E escutei com displicência o argumento dos homens
Duvidosos das chuvas, de língua seca.
Morro das lembranças:
De apanhar do chão
Meu matulão cansado da estrada.
E eu um homem desertificado
Rezado, benzido pelas sombras boas.
Cacho de alecrim, para espantar mutuca,
Deixando um cheirinho
Que a elas logo assusta.
E de noitinha ouvir a sinfonia mais desencontrada
Da saparia regida do maestro ensaboado.
Araras no topo jogando migalhas
Que até eu, com a fome, que chega às mesmas horas,
Peguei e comi lembranças do chão.
Adoeço só de ver as estradas encobertas
E um céu descoberto, sem uma nuvem que se pise.
Quanto mais me disto desses lugares meus.
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naeno* com reservas de domínio

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

tela do pintor AMARAL

SIMPLES

Nunca construí uma poesia
Como quem faz uma casa de praia
Sempre, ela pisa onde quer.
Esqueci-me das palmeiras de babaçu
Postas na área de entrada
Fazendo um caminho
Que por gentileza fica no chão.
Nunca premeditei uma poesia
Como quem virtualisa um amor alado
Desengonçado e trabalhoso.
Como o que sentiu fazer
A primeira maravilha do mundo.
Nunca imaginei a poesia
Como quem idealiza um amor
Não amo as poesias que faço.
Antes, às vezes as odeio e rejeito.
Elas me consomem tudo, o tempo,
Todo o amor de que disponho, traço.
As poesias que têm saído
De meus inventos,
Das rimas que persigo, imerso
Vem do universo.
Vem como chuva
Vem como anjos que voam ao léu.
Por isso haver tido delas
O conforto nas noites frias,
E nas noites de calor
O abanico de um cacho de flores.
Por isto eu me arrepio, choro...
Nada, é só uma troca de cortesias.
Uma retribuição do que de mim
Dei de coração ao mundo.
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naeno* com reservas de domínio

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

MEU NADA

Lembro da terra que me materialuzou
Relendo sua história num papel de pão.
Lá nada se via, nada se ouvia.
Nenhum barulho, nem silência
Chevgavam ou por uma boca ou por uma mão.
E num saudosismo de poeta esquecido
Sinto doer meu coração já tão distante
Quatro, cinco casas, dez, vinte gentes
Povoam ainda hoje minha cabeça
Como se a morte naquele lugar agonizante
Nunca passou e ninguém se foi.
Podia já haver morrido.
Lembro que ààs seis horas da tarde
As cigarras cerziam segregadas
Seus cantos de dormir.
E as mesas se floriam
De toalhas estampampadas , de muito uso.
Que viravam lençóis
Depois mudavam para vestidos
e se puíam e ao monturo serviam.

Lembro desse lugar
Pelas notícias que traz minha alma
Todos os dias, quando chega para o pernoite
E fala dormindo, e me diz: de Arlindo, findo.
E se refere aos de minha idade
Que ainda não saíram para conhecerem a cidade
E ainda se submem aos golpes
Da enxda amolada na pedra demanhãsinha
Ao machado que por vezes,
Errava o opau e dava com a canela
Triste lugar. Triste situação.
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naeno*com reserva sde dom´pinio

Domingo, Agosto 31, 2008

TRAMA

Fostes no vento a folha mais leve.
A que meu olhar descreve,
Afugentada do meu abraço.
A guilhotina, a faca acima,
Os atônitos olhos não veriam em cena,
A sala fechada, nenhuma fresta, se via,
E corria a fita, o planetário inteiro.
Pelo sangue soube-se
De quem era o pescoço,
Um esboço feito na areia,
De prantos e gemidos, triturados.
A agonia das horas,
Torciam contra e a favor
Do desfecho excomunal,
Do punhal posto na mesa.
Ganhara o mais munido,
Logrou a munição de um novo inverno,
Os que arrebentam no cadafalso
Sozinhos, levando a história.
Em seus solitários caminhos.
Um herói da guerra inaudita,
Dos planos de partilha
Das vestes daquele só.
Que já chegara nu
Coberto dos olhos cegos
Das mentes vazadas
Da mesma visão,
Do pó, do chão.
O veredicto foi simples
A medida da tarde não previa
Esta enfeitada teia prisioneira
Da aranha, pelo céu.
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naeno*com reservas de domínio

Sábado, Maio 10, 2008

DETALHE

Era o brilho do teu olhar entre as pessoas
a buscar-me sorridente em cada canto,
e a festa esverdeada do encontro.
Detalhe era a piscada alegre
no outro canto da sala cheia
convidando... insinuando aproximar...
Detalhe: era teu rosto preocupado
por uma dor ou na tristeza que eu tivesse
era teu sorriso orgulhoso
pela nota dez que fiz no teste.
Detalhe, a tua mão
pousada em minha perna na estrada
e tua voz "boa viagem pra nós",
acompanhada do beijo que trazia.
Detalhe, o teu prazer vazado e descarado
somente por estar na minha companhia.
Detalhe o teu abraço no meu erro
e a frase de cumplicidade:
“Tudo bem! Na próxima a gente acerta!”.
Detalhes... para mim, não são detalhes
são pequenos feixes de luz
compondo e enfeitando a nossa história
pirilampos brilhando na paisagem
mostrando a vida que deixaste...
detalhe de eternidade na passagem.
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naeno* Com reservas de domínio

Domingo, Março 16, 2008

VIDA

Depois que a vida chorou pelos meus olhos
E soprou a minha boca pela boca dela
Temos sido assim amantes
barulhentos
Quando em nossas encruzas
Mostramo-nos os dentes.
Depois de fincada no chão uma semente,
Pelas mãos dela, e eu era um silente
Pequeno grão suado por sua mão fechada
E ali já germinava, e ali eu
florava.
Aflora agora uma vida em dormência
Sob os caprichos dos seus pés, fui
Calcado, e transplantado tantas vezes
Por não ser o enfeite pra sua j
anela aberta.
E eu não pergunto de mim a ela
Não incomodo a dona dos arados,
E o que quer de mim, nessa lavoura úmida?
Que eu chore, que me decline.

Serão meus frutos de sabor ruim,
Que ela não arreda o seu olhar,
E quando eu digo gosto desse canto,
Ela me espanta apontando um outro igual
Faz-se arrendatária
, também de mim.

Eu me iludo que com os outros.
É mesmo assim:
Por ela transplantados, fustigados,
Enxertados,
lavrados.
E que não têm sentido
Os seus caprichos arcaicos.
Tem tudo acertado, e sabe
o que faz.

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Naeno* com reservas de domínio

Terça-feira, Março 04, 2008

MINÚNCIAS

Não é preciso somente abrir a janela
E deparar-se com a claridade
De todas as manhãs.
Ouvir o mais nítido barulho dos riachos
Que passam rentes as encostas,
Levando peixes e pedras sobre seu piso liso.
Nem consternar-se com o vozeio
Da vida que se faz lá fora:
Os que passam, os que ficam,
Esperando e levando, sonhos
E a vida para o sacrifício.

Muito mais necessário fica
Olhar todas essas minúcias,
Que são, perturbadoras visões incompletas,
Sem a visão fechada do crític
o céptico,
Do filósofo que fala o imponderável.
Do carrasco que a todos odeia,
E deseja a cabeça de cada um numa bandeja.
É necessário saber nesses momentos,
Deixa-los na sua pureza, saltar
a janela,
Invadir a porta e abençoar-se deles,
Banhando-se sem pudor de estar nu e vulnerável,
Ao que não mete medo,
ao que desnecessário se faz,
Conjeturar, pensar,
filosofar.
Coitados dos poetas, filósofos, sonhadores,
Errantes nos caminhos fáceis que levam à luz,
À vida em sua essência,
Como é vivida, obrigatoriamente, por
quem nasceu.

Coitado de quem nasce e lança a olhar o mundo
Com a desconfiança de que é sua missão

Completa-lo, feito por Deus, erradamente.

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Naeno* com reservas de domínio

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

DO MESMO JEITO

Eu continuo o implacável
Besta solto numa capoeira.
Relinchei alto na hora do almoço
Declinei-me para pegar uma concha aberta
Com uma pérola, que me incomodava a visão.
Continuo contínuo, nos mesmos passos
Com a mesma fome e a mesma sede
Pronto numa rede só com os olhos de fora.
Continuo aqui, parado, distante
Garantida a minha vontade de ir
E de não me expor aos olhos pelas janelas.
Continuo achando papéis e lápis, facilmente pela casa
E, escrevo cartas para minha mãe.
E quando se acabam os papéis
Me passo para as paredes.

Continuo aqui, sóbrio, sem amor, sem amar
Sem esperar.
Não me incomodam os aviões que pousam
Os ônibus que chegam cheirando a distância.
Os barcos passam e eu, irreverente
Não me presto a um gesto de sequer olhar.
Eu sei que em tudo isso não vem
Não tem quem eu queria ver chegar.

Continuo o mesmo idiota, que viu o teu retrato
E se danou a chorar de saudade.
Como quem quer ser gente
Para, igualmente a ti, se explicar
E ouvir a sentença que quero:
- Eu te perdôo....
Mas vais dormir no alojamento.

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

DESAFORTUNADO

Eu conheci a casa de um desafortunado
Nela vivi quase toda minha vida,

Apanhei gravetos para os invernados,

Puxei gavetas e guardei retratos,
Um arquivo morto de mim retirado.
Eu andei por dentro da casa cumeada
Tropecei pelos atalhos, cadafalsos
Troquei uma vida, que me dera, inventada
Por uma que eu vi de perto, andando enfalço
Fui o primeiro desordeiro do motim.
Não tive nunca uma gota de raiva.
E foi assim, andando, dentro e fora dos pântanos
Que hoje dou graças à sorte fora de mim.
À imaculada virgem, mãe da Conceição
O meu amparo, de quem mais eu vi nos olhos,
A minha amada, o tempo todo cortando a rota
Dos desamados, sempre me trouxe por sua mão.
Fiz pisoteio até o cultivo das pedras guardadas
E vi a festa da colheita das formigas,

E disso eu disse, com o coração e alma aflitas:
- Não me descanso, mesmo quando estiver sentado.
E da lavoura que os cupinzeiros demarcavam,
Das espigas de milho bem debulhadas,
Pus o sabugo como mastro da bravata,
E lutei só, com Conceição, nela amparado.
Olha-me Deus, no que escrevi,
Eu relatei a minha vida e Vos traí,
Era um segredo até o tempo por vir,
Até cansar, e cansado, aqui cair.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

CONTADOR DE ESTRELAS


Às vezes eu acordo pra ver estrelas
E choro vertiginosamente.
E minhas lágrimas brilham
E meus olhos se enchem de astros flutuantes.

Sinto dores no silêncio
E silencio tudo que em mim é barulhento
Traiçoeiramente acordado de um sono escuro
Mergulho copiosamente por entre belezas, acordado.
Transtornadamente imergido na noite.
Todas as dores estão sobre mim
Tudo em mim padece, sofre e se esquece
Que não acordei por querer,
Que ninguém busca a brasa acesa
E pisa sobre ela a encandear-se
Porque a carne se mostra
Em uma triste revolta e se expõe,
Paradoxalmente, ao sofrimento.
O meu peito na dura opressão
Não se contenta com a brisa fria da noite.
Marcas de ferro e de fogo,
Prodígio gozo de uma alma penitente.
E o meu espírito partido
Vê-se entristecido,
E não se abstrai com o que tem de sofrimento.
Como uma presença que não me distingue.

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

CHORO DA ESTRELA

A primeira estrela que eu vi esta manhã
Estava chorando.
E por sua dor impregnada em mim
Declinei o meu rosto e chorei também
E eu só vim perceber
Porque pensei
, chover
E dissimulei: chover do nada
Nenhuma nuvem
Foi quando a vi soluçando e triste.
Os pingos de suas lágrimas
Faziam esta chuva
Uma chuva de gotas contadas
Mas que o chão todo
molhava.
Os olhos de uma estrela
Não são como os nossos
Que sequer dão para lavar o rosto
Elas lavam a vida inteira
Elas comovem o mundo inteiro
E assim todos, como eu, choram.
Choram da estrela
chorando
Choro da do que suas lágrimas
Vêem prenunciando.
Tomara seja a solidão do tempo
Porque todas as outras estão imersas
No escuro, um domínio
protetor.
-Não chore estrela
Não chore
A companhia dos homens não te basta.
A nossa comoção pelo teu infortúnio
Não te alargam a visão de uma manhã venturosa
Acompanhada de todas
De todas as noites, o lindo
estrelar.
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naeno* com reservas de domínio

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

OCISAS DE DEUS


Coisas de Deus...

Tanto amor em mim guardado

E o meu rosto procurado

Por alguém que não me reconheceu.

Minha saudade de vê-la

Meu coração enfeitado

E como andará o dela

Por certo muito mais ornado.

Coisas do destino

Não ter em mim o que ensino

A quantos não sabem deter

Na mão, uma flor, um querer.

Já falo: não amem as borboletas

Elas são amantes do vento,

As rosas do beija-flores

As orquídeas das janelas.

Coisa de quem não tem mais

Do desencontro um sinal

A marca dos pés que procuro

Com o corpo todo, calcados;

Coisas de quem passa olhando muros

Vendo inscrições noturnas,

Quando este tempo, os sinais

São, pelo bem do amor demarcados.

Coisa de Deus

Esse novelo em meu peito

Embara


Quarta-feira, Novembro 07, 2007

QUANDO PENSO

Quando não se pensa em nada
Há um mundo repleto de coisas ao nosso redor.
Mas quais os elementos que compõem o mundo?
Quase sempre eu não sei dizer o que penso do mundo.
E se eu estivesse acometido de um devaneio
Uma doença dos sentidos, pensaria assim.

O que penso das outras tantas coisas que estão aqui.
O que eu saberia dizer disto, dos efeitos e de suas razões.
Quando falo em Deus, saberei a quem me refiro,

E a alma, esta volátil, dela o que dizer, objetivar?
Penso na criação do mundo, em quem o fez,
E pensaria coerente, caso visse tudo à mostra?

Não saberia dizer a ninguém
Embora isso me interesse

Mas não fizesse sentido aos outros

Que também devem ter suas deduções alucinadas.

Pensar em tudo isso é sonhar acordado, de olhos fechados,
E deixar de pensar é impossibilitar aos olhos qualquer dedução
À minha cabeça, que inquieta insistentes vezes acertando às vezes errando.
O mistério das coisas é o mesmo que reside em nós
E as coisas, também pouco sabem a nosso respeito.

O
que eremos para as coisas com as quais nos confrontamos
Podem elas ter um juízo acertado ou malogrado de nós.

Quem está na noite e fecha os olhos em nada muda
E quem vai ao sol e fecha os olhos, perde-se dele falar.

É como se estar na noite, de olhos vendados; não se pensa nada.
Porque nada se vê e nada se tem para avistar.

Por que uma rosa orvalhada, vale mais que o que pensamos dela
Se quando nela nos abstraímos, a vemos inteira, como é?
Assim por mais que sejam insistentes os poetas
Ou os obcecados pelos mistérios que se encerram nas coisas
Às vezes desatinam em suas conclusões e transmitem
A outros que sequer contemplaram tais matérias

Ficam com essa crença, a deturpada noção
Do mundo, e de tudo o que ele abriga harmoniosamente.

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

POETA

A vida do poeta tem um batimento disforme
E um momento pendular de subir e descer, ofegante.
O poeta é o caule-pai do enxerto do sofrimento
Das dores inexplicáveis, mas que lhe fartam os olhos de candura.
O poeta tem a alma de uma parte do universo prescrutado
O invisível que ninguém imagina e não se compreende.
Ele é o eterno caminhante por veredas irreconhecíveis
Por onde passa, socando a terra com os olhos para o céu
Coberto pelo espesso fim aonde não se chega

Ensolarando com o seu próprio raio a vista da vida.
O poeta tem o coração minúsculo dos pássaros,
E a inabilidade das pequenas crianças.
O poeta sofre, chora, e passa a mão nos olhos
Pranteia leve, com lágrimas de néctar, de águas coadas

Olhando o ermo, imenso, espaço do seu espírito.
O poeta ri-se, e ri naturalmente
Sorri para a vida, para a boniteza, para o carinho

Sorri com suas lembranças da mocidade, melhor que agora
O poeta tem uma alma de bondade.
Ele ama as mulheres todas as mulheres puras e tocadas
Sua alma lhes entende na luz de suas impurezas

É repleto do amor aos reveses da vida

E é de amabilidade para os gestos da morte.

O poete não se esquiva ao presumir a morte.
Seu sentimento adentra a sua percepção calma
E o seu poder criador de poeta tê-la cheia de muitos enigmas

E a sua poesia é o sentido de sua permanência

Ele o constrói imenso, ornamentado e pobre

E o afaga em vendo-o sôfrego e o acalma na agonia.

A vida do poeta tem um batimento indecifrável
Ela o leva andarilho pelas veredas

Calcando o chão e mirando o céu
Enclausurado, eterno, dos limites invisíveis.

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

FAVORECE

Ela me ofuscou com seus faróis em luz alta
E eu coladamente passei rente ao lado dela.
Mas nenhum grito de amor,
Se não eu já ficava
Ainda hoje estava com os meus olhos de choro.
Olhando a lua, pensando nela,
Vendo as estrelas, querendo ela,
E ela um jato lançando fumaça em mim.

Ela me confundiu com um pássaro qualquer
Que dorme cedo e voa a hora que bem quer,
Mas nenhum gemido de amor,
Se não eu tinha ido,
E até agora estava, seu, comprometido
Bem recaído, por esse amor tão delicado,
Cortando chuvas me enrolado em toalhas,
Vendo, mexendo a minha vida num varal.

Acostumei-me a não ser visto de perto
E me constrange o olhar, quanto mais belo.
E o dela pega na memória,
A maltratar de amor assim.
Ainda agora eu pensei nela e veio à flora
Umas tonturas, um desejo de entregar
O que possuo, o que vou ganhar
A vida tem sido bem louca em me amar.

QUERER

Querer e poder são por dois olhos
Uma visão do extremado
E não do fim
A beleza que encanta e tanto eu olho
É o que vejo em em ti
E não há em mim.

O ter e o querer são, por prisão
A razão de fazer-seSem ter fim:
O esplendor de uma rosa
Quando ela abre
Os teus olhos também
Se alargam assim.

Bem dizer, mal dizer eternamente
Sempre o não
Quanto mais eu te falo sim
O suor do teu corpo
Inteiro brilho
De um brilhante lapidado de mim.

O fazer e o benzer a obra feita
Algo bem findado assim
O artista que sonho e que não vejo
Nas rajadas do vento no capim
Há uma cobra que se mexe quieta
No ritmo que danças pra mim.

Sábado, Setembro 29, 2007

ENGENDRA

O poeta faz do seu personagem
E vida como se fosse natal.
E não é assim desde do seu descoberto
Do seu acostamento, dentro de casa.

Cria um quadro sobre ele
Como se uma tela fosse,
Cobre-a de azul celeste, e púrpura.
Beirando o escândalo.
E mexe-a, e vira-a
(um operário de Deus avaliando-se a si mesmo)
Leva-a consigo aonde vai.

O poeta doma o poldro e o mito
- é o que escreve se informado
Guia-se pelas crinas esvoaçantes
De certeza plena, que ali lhe cabe?
Mas sempre reinante.
O caos se alastra, esplêndido
Olhado da fresta, toda a janela
Onde ele se recurva e deita
Para dentro, para fora, para o alto
Par o despenhadeiro,
Para a viração do delírio
Em formatação de uma poesia.

Artesão, manipulador praticante
Do drama encenado
Ele próprio é o progatonista
E todos os abatidos,
E as cantigas, iguais,
Ouvindo de olhos fechados
E determinando o silêncio, pela batuta
O que só no silêncio brota e vinga,
Para em cena sair com o guarda-chuva de Carlitos,
Declarando guerra à burguesia e seus tecelões mecânicos.

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

DESCOMPENSA

Pena que de tudo ruim
Muito pouco evapora,
E resta-me a auto-proteção
De tapar os poros,
Inutilizar as mãos.
E o bom, o que a gente ver
E se apetece.
O peito o coração,
Sempre estarão direitos,
Infringindo a contra-mão.
Alguém me assustou dizendo,
Algo terrível aos meus ouvidos,
E tudo que é belo é sentido,
Débeis para uma investida.
Capazes de nos deixarem
Famintos com o coração e o peito a roer.
E sem olhar que tudo ruim,
O opróbrio, o indesejado ser
Que nunca se evapora,
Ficamos sós pra nos defendermos.
Ai os bons dias voláteis,
Vão lá, no cosmo encantando,
Cantando, a canção de esquecer,
Esquecendo, o bem de fazer
E fazendo, quem o amava, sofrer.

Terça-feira, Setembro 25, 2007

UM BOM LUGAR

Não achas aqui um lugar tranqüilo
Para sentarmos e contemplarmos
As brisas passarem,
Os pássaros cantarem,
O beija flor, o beija flor
E o seu insaciável amor.
Aqui não é o lugar mais certo
Para que os desacertos
Sejam corrigidos
E caia chuva, e vente os aromas.
No único lugar próprio do mundo
Para se pensar a calma,
Para se falar com alma
Pra se deixar chorar
Os olhos e o coração.
Aqui sob o alpendre natural da encosta
De um lado ramas reclinadas de flores
E de todos os rumos onde apontam
Nossos desejos, vê-se Deus, temos Deus.
Não é aqui verdadeiro, o lugar
Para eu soltar minha cabeça no teu ombro
E o teu corpo se apoiar
Enquanto a vida descansa. . .
Enquanto a tarde e seus burburinhos
Vão terminando.
Não é aqui no teu leito
Que cabe os dois mundos
O meu e o teu, e ainda cabe
O amor do tamanho que está.

Sexta-feira, Setembro 21, 2007

ESTRADA

Esta estrada onde eu já passo por muito tempo
É nela que eu andarei, sem que ela finde.
Nela eu não mais me assusto
Tudo conheço, de quase tudo dela eu sei.
De vez em quando me e
spanto
Mas até frente do espelho me assusto,
Mas quando abro os olhos,
Porque as vezes insisto
Em não parar e não dormir,
Vejo a mesma companhia, e sou sempre eu.
E os meus pés não se enganam ao pisar,
No leito desta estrada, onde tanto deixei,
Por ela eu sigo, e não voltarei.
O que deixei cair, ficarão lá onde estão
E se larguei, jhá não me interessam mais.
Voltar não se justifica,
Porque o que eu já andei, deixei, não olhei,
E andei sabendo que à frente é onde estão
Meus encontros assinalados, inevitáveis,
O que juntarei.
Não sou de juntar.
O que pegarei pra fazer o que for
Pra me espantar, de surpresa
Para eu andar com clareza
E tudo, amando, pegando,
Tudo um dia deixarei nesta estrada.

Quinta-feira, Setembro 20, 2007

A LUA

Quando ela passa tão suavemente,
Enche de amor os olhos da gente
Quando ela vai, quando ela vem
Clareia tudo e a gente sente.

Linda, como se fala ainda,
Dela que todos chamam de bela
Dona dos sonhos dos poetas,
Desvia o barco da procela.

Quando ela falta, a gente fica
Sentindo o mundo tão vazio
Claro que a luz é mais bonita
Claro clarão pelo infinito.

Bela lhe chamam e dela se liga
Tela de Deus, a mais bonita
Claro clarão de amor, se diga
Ela é tudo que luz se fixa.

Quando ela chega tão levemente
Treme de amor o coração dentro
Quando ela parte tão vagamente
Deixa molhados os olhos, e se sente.

Quem disse que a lua é feia
Palavras do céu lhe faltam
Quem disse que ela não faz falta
Se arrisca... os poetas até enfartam.

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

TEU NOME

Nos meus papéis importantes
Nos lastros planos das árvores
Na minha carteira de trabalho
No bolso da minha camisa
Eu escrevo teu nome.

Nas nuvens claras do céu
Na areia quando a maré alisa
No coração de papel
No balão que solto ao léu
Eu deixo escrito o teu nome.

Nas paredes em ruína
No casarões tombados
No cimento ainda molhado
Na meia na parte que se vê
Eu deixo o teu nome escrito.

Nos pés dos altares
Nas toalhas que sobram ao chão
Nos dias claros de verão
No meu casaco de inverno
Eu já escrevi o teu nome.

Tatuado no meu braço
Que se expõe quando a camisa arregaço
Nos meus dias de cansaço
Nos embrulhos que carrego
Está impresso o teu nome.

É como marcar-te minha
E em tudo que vejo e se aninha
O meu olhar de emoção
De ter-te comigo aonde eu vá
Te afundas em meu coração.

Terça-feira, Setembro 11, 2007

ACALANTO

Muito antes de eu nascer já me acordavas com cuidados
Um anjo me designastes, antes de minha mãe pegar-me.
Ele me segurava quando eu corria rumo ao despenhadeiro
Ou quando me declinava sobre o precicípio.
Me embalava com canções compostas aí,
Serestas e acalantos, dormia ouvindo-os
Para aplacar minhas investidas nos caminhos da cruz.
De noite eu sentia cada passagem do Arcanjo
Sob minha rede armada no entrar do quarto,
E se ausentar nas estradas altas par o céu.
Após e tardiamente, uma mulher deitou-se do meu lado
Tinha uma forma de anjo fêmea,
E na minha vida, já se diminuíam os cuidados do tempo.

Se não for do puro atrevimento, manda-me o teu anjo
Para que cuide de minhas feridas expostas,
Para que resfrie a minha boca:
Há momentos em que mesmo a vontade não me convence
É necessário que eu te veja inteiro, rente aos meus olhos
É preciso que eu me veja em ti
E que encare os sofrimentos como um sol claro
A tua luz subindo e descendo sobre minha vida.

Manda o teu anjo que com ele eu aprendi a falar
De coisas que por aqui, nas divagações de mim,
Não mais sei contar a ninguém
Nem mesmo à mulher que dorme comigo
Nem mesmo o homem que soube ser meu pai.
Não és tu meu pai, que já flutua, que já é anjo
Meu pai, de verdadeira saudade lá bem de dentro de mim.
Manda-me essas pessoas todas
Para fazerem um coro, para eu poder dormir.

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

CONFRARIA

Ninguém pode querer a vida
Que a si sugere.
Ninguém mais pode está só.
Os enigmas são revelados
À luz de todos os sóis.
Eu estou envolto de algo
Quem em mim se agita
Vou persistir em elevar as mãos
Aos bondes que ainda passam.
Engulo, por um amor, uma rosa
Que dentro de mim explodiu.
Só tive paz e segurança plena
Imerso no ventre de minha mãe.

Um esteio que vejo existir
Desde o princípio do meu tempo
Não me respirar do ar
Que não seja rarefeito.
Sou sempre tristonho dentro do escuro.

Adios sol calliente del tiempo escuso
Que não tens aos inocentes
Nada reservado em teus planejamentos
O só, o pobre, o nada, o nu.
Não vejo homens de boa vontade
Em parque alguma que freqüente
Os meus sonhos, eu, presente,
Sumindo, serei livre, amem.

Segunda-feira, Agosto 27, 2007

ESTEVE ESCRITO

Te espero desde o início do começo
Desde o tempo dos lampiões de gás
Desde o primeiro samba, a estação derradeira;
Fostes sempre o meu amor tristonho e sensato
Por ti me embati com a vida
Matei mitos intransponíveis
E fiz de pedras quentes flores orvalhadas.

A terra tocou o céu
Com a grande cauda de fogo
Mares se juntaram pra te refletirem inteira
No começo do nosso fictício amor.
Dura e sublime criatura
És o modelo renascido
Das tantas mulheres invisíveis
E ao mesmo tempo, mansa e de carícias
Nosso amor corre para uma luta
Ao toque de valsas muito antigas
A abertura do sol será a nossa estrada
Desvanecidos de paixão
Até encontrarmos uma solidão pra dois.

Sábado, Agosto 18, 2007

CORTINAS

A manhã eleva os cantos
No teu ventre, jogo flores.
Ante às cortinas de branco armadas.
Há lugares pelos caminhos
Onde se pode te esperar.
Fala-me o vento das matas
Dizendo-me que vais passar por ali.
Nas alturas se agitam ramagens
Flutua os teus lençóis cuidados,
Descobri-te há pouco, aqui.
Floram rapidamente o arvoredo
Frutifica-se em campanha, caem.
Fruto nas tuas mãos dispersas.
Surgem doces em tua boca
Teu riso da cor das nuvens
Largastes distante o tamanho.
Acatas todo o silêncio áureo
Da hora mais bela do dia.
Confundes-te com as nascentes da estrada
Declinas no empate das águas,
Conversa tempos com as nebulosas
Te entretes com o curió da mata.
Deus fez um conserto
Nas estradas pra tu andares
E ele ainda insiste fazendo.
A manhã derrama flores
No teu ventre cantam pássaros.

Sexta-feira, Agosto 17, 2007

MEDO

Já é como está vendo. Esta chuva que se promete,
Anunciada por nuvens espessas, me arremete,
A outras chuvas, por outros umbrais, e me mete
O mesmo medo de trovões, de fogo e perigo perto.

As chuvas e os meus medos, entrelaçados, lavoura,
Covas rasas, covas fundas, plantando esperança de novo,
Esquivo de muito barulho, que quanto mais, menos ouço,
E meu coração se confunde com jatos de água em meu dorso.

É como que está sentindo, a chuva que vai caindo,
Me levará brutalmente, aos perdidos estreitos caminhos,
Do tempo que um operário fazia de tudo, menino,
E caçava o tempo com pedras pisoteando caninhos.

As trovoadas, as pancadas dos pingos pela calçada,
Que batiam e voltavam de novo, a casa ameaçada,
O tempo dessas invernadas, a morte já anunciada,
De qualquer coisa, qualquer gente, eu acorria abraçado.

Terça-feira, Agosto 14, 2007

INCLEMENTE

Quando penso,

Pedaços de sol caem sobre mim
Como um desastre ecológico
E eu conto e ninguém acredita
Que estes raios incidem só sobre mim.
Uma lembrança das outras manhãs
De calamidades expostas,
Dos dentes a mostra
Dos bichos nos vales das estradas.

Quando eu me ponho a escutar
Ouço uma sinfonia de pássaros,
Sôfregos, confundíveis com os galhos
Farfalhos em minha boca
De morder a língua
Num jogo doido de mim comigo.
Lanço pedras na direção do dia,
E o sol desvia-se qual juriti no seu assento,
E nenhum gesto meu o afugenta,
O agourento despojo dele por todo o chão
E eu impotente sacudo os braços,
Pra ver caírem minhas mãos.

TE PERDÔO

Te perdôo
Por não teres aonde ir com o meu coração.
Se o teu carrego sempre em minhas mãos,
Como uma hóstia, antes de ir á boca,
E encher meu peito de aflição.
Te perdôo
Como já fiz tantas vezes
Em que errou meu nome, vão
E a casa onde moro sabendo aonde ias,
Com o endereço em tuas mãos.
Te perdôo
Por amares mais as flores
Que a mim, e em teu jardim
Há mais delas do que eu,
E mais esterco do que cores.
Te perdôo,
Te perdôo com a decência
De esquecer tua dormência,
O dia todo passas com a minha ausência.
Te perdôo
Por não me deixar uma fresta
Se de mim nada mais resta,
Se até o meu nome trocas, nunca acertas.

MÁRIO

Escrevo olhando para o céu,
O papel é da mesma cor azul,
Verde, a caneta, da esperança escrita.
E também desenho um pássaro ao léu.

Estou curioso por ver a paisagem enfeite
Misturo tons que me arregalam a visão,
Buscando sempre as mesmas descobertas,
O céu, é inútil querer dar-lhe outros efeitos.

Brinco com a luz incidente na folhagem,
Que pinto e bordo, da cor e do cortado,
E que propunha, a poesia, enfeita-se
Desses desmandos de nova linhagem.

Ando volátil como o ar rompido,
Que acolho e beijo em minhas mãos aos poucos
E me permito voar com ele aos pedacinhos
Aí nessa folha como tenho sido.

DE DIA

Tarde demais para acostumar-me com a sombra.
Eu que venho por todo o dia tangendo a claridade
Vendo brotarem flores novas nos escombros.
Cativa-me o medo da noite agora, e fico só
Desterrado do teu regaço, posto solto
Como um menino que larga o peito, e agarra o mundo.
Não tinha planos para as estações,
Em todas eu plantei, e depois desenterrei todas as sementes
Foi uma brincadeira de menino, uma experiência de nascer.
E morri, quando os teus olhos se fecharam
Não te via mais, e era tu que não me enxergarvas.

Cedo demais para outras colheitas entre os apanhados.
Ninguém saiu, são os mesmos rostos de ainda pouco
E tudo o que eu tinha entreguei em troco,
Ao sol, que reneguei, ao dia que decepei,
Da noite que fez dos meus quereres tardios.
Agora é o mesmo tempo de todo o tempo,
Nada serviu a aplacar em mim a réstia
Que persuadiu-me e dormi com ela.
Veio pela janela, insistente o dia, repelido,
E se insinuava como uma amante afogada
Em amor querendo dar-se, alforriada.
Agora que sabes que não me atormentam as nuances do dia,
O tempo, comigo tem sido um elástico tenso
Que ora está aqui, mostrando-me os taciturnos gestos
Ora se afugenta, talvez medo de mim, talvez medo dele.
E só Deus saberá contar as horas em que me larguei daqui
Saí sorrateiro pela lateral do terreiro e nunca mais me vi.
Vi uma sombra calcada sob meus pés, derrotada
E nada de mim, nem do dia, nem de nada mais restava.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

SE LEMBRA
música

Por todas as ruas onde ando sozinho
Eu ando sozinho, com você.
E você que nem se lembra mais
Se lembra!
Do jeito que eu fui
Tão dedicado, meu amor
Vejo com saudade
A rua, a cerca, o espinho, a flor
Tantos gestos fiz
Pra lhe falar, lhe ver sorrir
Você se lembra.

Ainda ando sozinho,
Eu já nem sei se eu ando.
Eu ando sonhando com você
E você que nem se lembra mais.
Se lembra!
Do jeito que eu sou
Tão complicado, meu amor
Fico encabulado
Quando vou pegar uma flor
E há tantos gestos mais
Para entender, e esta canção,
Pra você lembrar.

ANJO
música

Anjo, que sobrevoa meu sonho
Me deixa alerta, desperto
Me deixa muito mais perto
Das coisas boas da vida.
Anjo, te enxergar é complexo
É se curvar circunflexo
Compenetrado, tristonho
Ante tua luz refletida.

Não quero nexo.
Sem essa ausência de sexo
Eu quero te ver perplexo
Anjo tirado de mim.
Te quero anjo no céu
Te quero voando ao léu.

Quarta-feira, Agosto 08, 2007

BATALHA

Não estivemos à frente dos que lutaram.
Bebíamos, sacudíamos nossos braços
E apertávamos as mãos dos loucos.
Eles arrebatados pela palavra da mentira,
Foram lançados e resvalaram contra nós.
A trincheira cabia uns dois baixos, magros
E ficou tomada por todo o batalhão da derrota.
E a marmota, a esfinge cortada,
Foi levantada como um troféu pra eles.
E eles nos comeram mortos.
Imagino, nos cortaram aos pedacinhos
Como suas diferenças e maldade se media.
Não estivemos a lutar, empurrar com os braços secos
Rumo à cova preparada e nova
Os que se destruíam frente a morte,
Chamando pelo seu nome, e pelo nome de Deus.
Agora quietos, silenciado o covil dos torpes
Que não guardam pena nem de suas dores,
Doem, ardem de uma febre que não se vê.
Sente-se o tremor dos galhos, das folhas,
Como se a vida ainda continuasse,
Mas ela estava ali, parada com as mãos nos bolsos
Leve de qualquer pressentimento ruim,
Isenta do mal, se para ela mal se apega a um
Imagine-se um comboio de loucos de desorientação.
Cadê o tempo, pra se contar no corpo dele
Este episódio narrativo da vida só.
Por onde passa o tempo, embriagado,
Líquido, por onde escorre o tempo se ninguém segura,
Se nenhum pendura um nome qualquer
Para que ele por sua deliberação, preserve quem está vivo.
Será que por todo este lastro, acobertado de vergonha
E presságios de acontecimentos piores,
Não há um ser inativo, de quem escorra sangue
Para com ele se reiniciar a vida.

Terça-feira, Agosto 07, 2007

TEIA

Escolho ao acaso uma folha branca
Mas que podia ser verde, ou de outra cor.
A intenção é escrever o poema
E que ele saia nítido como esta cor oportuna.
E escrevo, faço intercalações,
Faço a palavra que mais se adequou, distante,
E ponho um risco ligando-a ao nome.
Comecei por chamar saudade
Mas vi que o sentimento era outro,
E o nome obrigado teria
Que não se chamar saudade.
No meio da página a poesia quase enfeite,
Derramo café e espero secarem as idéias.
Ponho um preposto, entre o sentido e o fim,
E pra quem vem lendo de lá,
A alfândega perde o pedágio
E a poesia ganha outro ditame.

O lápis por descontrole pára.
E a poesia silenciou, quando afluíam
As falas, as almas, os encostos.
Aí me deito delgado, de cara pra cima,
E do teto a aranha tece sua nova roupagem,
O acabamento impecável
Que, se lembrasse, usaria na poesia.

LUA

Lá fora a lua, mostra um mundo calmo
E a maioria dos olhos triscam nela
E as bocas que nunca a beijaram
Saltitam no gargarejo, gritando por ela.

Lua que no céu flutua! E vai
Em passos lentos seguindo os mesmos passos do sol
E acompanhada de estrelas, por sabê-las
Até pelo nome, que todas descem onde ela cai.

Lua que nos dar o luar! Ofuscado da luz nascente
Ó quão sonhador seria, se minha namorada fosse,
Quem aqui na terra, ao te ver não se arrepia,
Não se engana todo, não ganha o seu dia,
Estrela que chamada, em seu nome seria mais doce.

Lua que prometeu dar-se a mim em casamento,
Peço-te agora, leva-me como um teu rebento,
Finca-me no teu regaço, deixa as intenções de amar
Comigo que já me tenho disperso por este momento.

Lá fora o luar, a lua aberta em leque
Um fogo brando que só a gente aquece,
Lança-nos a dentro um aroma destilado
Criado de sua boca, pelo seu amor tão leve.

Segunda-feira, Agosto 06, 2007

SEMPRE TE AMEI
Basta que saibas que a ti somente
Que a ti somente, flor, adorei
Meus olhos dizem constantemente
Formosa, eu sempre, sempre te amei.
Do teu sorriso terno, divino
Cativo, humilde sempre serei
Por isso eu digo não me domino
Formosa eu sempre, sempre te amei.

Se um dia de amar na lira,
Os teus encantos, sequer deixei
Por isso eu digo não me domino
Formosa, eu sempre, sempre te amei.
De amarte-te em sonho, um só momento
Um só momento, sequer deixei
Por isso eu digo, sem fingimento
Formosa, eu sempre, sempre te amei.

Por toda parte, rindo ou chorando,
Chorando ou rindo, te seguirei.
Dizendo mesmo, de quando em quando
Formosa eu sempre, sempre te amei.
Pouco me importa se o mundo louco
Me chame e diga que eu sempe errei.
O mundo é velho, caduca um pouco
E eu sempre, sempre, sempre te amei.
_____________________________
naeno* com reservas de domínio

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

POETAGEM

O poeta se mostra com papel e lápis
Por eles vive como em seu próprio alojado
E não fica morando.
Elabora o feitio do personagem,
Colore-o das cores que lhe aprouver
Geralmente cores que lhe arremetem a escândalos
Dá-lhe um sentimento, uma postura barroca,
Cinzela-a, pincela-a,
(designer de Deus criando para si próprio)

O poeta estraga o permanente vivo
- é o seu protótipo quem modela.
Move-se com cordas de cristais
De convicção humana queimada
Sempre e sempre na validade.
O breu de brumas toma forma
E deixa a gente disforme.
Olhado da janela panorâmica
Onde a mente se debruça
Para intrometer-se fora e dentro
Para o contrário
Para a urdi-métrica do delírio
Decifra-se em tons e acordes de poesias.
Benfeitor, transfigurador, ativo
Do apogeu da vida.
Ele é o próprio camarim em seus áureos dias
Em que lhe visitam filas militares.
Conviva e influente dos imortais
Ouvindo sem prestar nunca atenção, e propondo silêncio
Para se meter na chuva com a arrimo de Cervantes
Ordenado o seu exército em guerra contra a loucura,
Dos amores, das visões e dos moinhos.

Louco andarilho da América Teresina,
Taquígrafo de códigos inconcebíveis,
Concretiza na palavra a sua possessão.

Quinta-feira, Agosto 02, 2007

MANHÃ

Pena dessa manhã
Que tão ofuscada chegou
Pelo sol que bate nela
Tanta gente se alegrou
Com a luz e não com ela
Ela que trouxe o andor.

Toda manhã é assim
O começo de outro amanhã
E quem ultrapassa a linha
Leva pra vida uma a maçã
A manhã não é lanterna
O dia não é um talismã.

Ó senhora destes dias
Mãos que afaga e fareja
A manhã mostra o que vive
Tudo, estando onde esteja
O dia não é passagem
Se a manhã for benfazeja.

Porque é que o galo canta
Antes das pontas de sol,
É dizendo que no terreiro
Daqui a pouco é arebol
Então se arendam do meio
Quem não se mexe, e está só.

Manhãs que eu vi pela vida
Todas passaram ligeiro
A gente acompanha o rastro
Mas não lhe pega o desejo
Que assim tava garantida,
Nossa vida pra assim seja.

LUZ DE SONHAR

Ao entardecer, debruço-me na janela
Na certeza que campos e quintais me cercam
Olho até o suportar dos olhos
O sol, que se vai minguando à minha frente.

Que saudades vai deixando o sol
Que o dia todo esteve comigo.
E o seu modo de mostrar o mundo
Só ele sabe, ninguém precisa.
O sol prover o homem de força
Provém de onde se imagina ser
E o que falar a esta entrada luz
Quando se sai de nós e se vai embora.
Embora eu saiba que amanhã estarei
Neste mesmo pouso, se o tempo vier
É bom que o rei venha no seu tempo
Que é o mesmo meu tempo, eu procurarei.
Logo de manhã, vou à procura dele,
Não na frontal visão que se acaba agora
Rebuscarei o fundo que há um avesso
Do outro lado, tranzendo-me a aurora.
Ó, sol, ó luz! A mesma coisa que olhar pra ela.
Que de outra luz se cobre e rebrilha
Mas que a mim é imposssível a sorte
De sem a claridade do sol enxerga-la.
E eu olho a ela como olho na lua
Nos seus caminhos que ela faz em casa
E os meus olhos talvez fiquem cegos
Por tantas luzes, tanto admirar.

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

COBRA

Comprovadamente o bicho Cobra tem veneno
Mas nem todo bicho é letal
E todo veneno é.
Nem toda cobra tem veneno,
Mas todas são tão iguais.
A cobra se esguia e solta de esguicho a língua,
Malícia de quem contou assim, dos répteis,
Porque todos fazem do mesmo jeito.
Mas a cobra voa, não por suas asas
Mas pelo jato escumoso de sua boca mordaz.
Será que a cobra não anda ereta,
Não dispõe de pernas pra se movimentar
Por que tem o suficiente em si que se pode pisar
Passar os rios profundos,
Cobrear por todo o mundo.
Sem destino, sem assunto,
Falando das cobras, dos seus calcanhares.
É de comparar-se a cobra ao homem
Que ela vive no abandono sem querer se mostrar.
Porque o seu insolente veneno,
Ela julga mais ameno que o do homem, a maldade.
Que não, pelo tempo que ela vive
Nunca tirou mais vida do que nós, propensos a nada.
A cobra tem um papel.
Arrastar-se pelo mundo ao léu,
E o do homem qualquer coisa se diz,
Que é um eterno aprendiz
Não dá pra se classificar.
São dois bichos desta fauna curta,
O homem que é um predador à mostra,
A cobra que se matula em rolos pra não morrer.

Terça-feira, Julho 31, 2007

JOÃO GRILO

O homem absoluto pelo mundo
Vislumbra a mulher que surge sob seus olhos
E não estanca, nunca se finda.
Divide a vida com outros seres
Um projeto que se altera, brinca de renascer
Uma criança que se ri cantando.
Tudo o que vê e por ele passa se perpetua em meu cérebro.
Sublimo as flores nas áureas, nos acordes, nos seus balanços
Pisoteio sobre os telhados das casas pendulares do mundo
Abstraio do sonho os corpos das meninas perdidas
Desoriento as planificações,
A estrada se racha com minhas passadas,
E não toco em nenhum canto do mundo.
Apascento os heróis ociosos, louvo o guerreiro derrotado,
Não me dou a amar qualquer pessoa; eu sou o amor
Ajo surpreso por cumprimentar cães de rua
E a pedir perdão aos pedintes.
Sou a ilusão que presencia as criaturas quando nascem,
Que mexe com todos os espíritos com que me deparo.
Resultado da multiplicação, parado, distante do inferno
Não há o que me fixe às vias do mundo.

Segunda-feira, Julho 30, 2007

VOZ DO BRASIL

O sol foi dimanhando e o dia de uma manhã
Que fortifica a vida em seus botões de aperto
Terra presa na chinela, jaz, no vai arrastado da vassoura,
Que amanheceu disposta, crente que o dia se abreviará.
Pois tudo limpo, e tudo lindo, sobram-lhe palhas entre outras palhas.
Recolho-me quando era pra me dispor no mundo,
Deito ao relento, lendo, o que as estrelas estão segurando.
O mundo de que preciso é este: o mundo dentro de mim
Outro mundo fora para eu poder ser assim.
Caminho nas lembranças e me balança o peso
E o peso se contrapõe à balança, que lhe revela
Seja do tamanho que for, ela se vela,
A olhar o anti-ponto, o contra-número
Porque no mundo tudo faz essa diferença
Uns comem muito e outros têm o jejum como sentença.
Aumenta o rádio, não o objeto, o som volátil,
Porque agora se encerra no meu peito varonil,
Um sujeito ardil, tramando contra a nação.
E bem no tempo, no contra-régua que se acha o chiado
Do rádio, iniciando uma peleja, quase diária.
Uns falam pra todos e poucos são os que dão ouvido.
Porque já houve tempo que ninguém podia ouvir,
Falar era castigo, um diabo que mastiga os próprios dentes.
Eleva o rádio, não à condição de objeto estranho,
Mas o volume, bem no pingado com esmalte de unha,
É por aí, nesse intervalo, que se ouve e cala a Voz do Brasil.

QUINTAL

O meu mundo é do tamanho de um quintal
E pela vida toda eu não atingi seus limites.
Tem um poço que quando jogo os ouvidos
Ouço a saparia orquestrar a Ave Maria
E ouço Deus, e o vejo catar laranjas,
Futucando as verdes que caem maduras.
Selei cavalos com embira de tucum,
Amanheci em campos distantes das cercas,
O mundo onde vivo, vive a amizade
De todos os meus compadres
Libertos do celibato, que derribaram as saias.
Pindamonhangaba, Ilhéus, mangues sem fim,
Incluídos em mim posseiros de todas as minas.
Mostruários de ouro por todos os dentes,
Quando não escurece todas as possibilidades.
Extrair ovos sob a galinha quieta,
Comer com farinha, enrolar uma omelete.
Falta-me ao mundo que eu ocupo inteiro,
Já pelo cansaço, desse mundo imerso em mim,
Meu coração gritou, ontem, e hoje repetiu
O mesmo brado: quer uma companheira,
Uma artéria cheia de sangue todo fino,
Que ainda sou o arrimo deste infinito inteiro.
Aqui cabem luas, que caminham às bandas,
Um sol espumado pelas nuvens de banha de porco,
De mexidas loucas pra chegar ao ponto.
Um sabão de uva, que primeiro borra
E só depois clareia. Mas clareia tanto
Que não existe branco, alvo pelas golas,
Das minhas camisas lavadas de noite,
E que demanhãzinha já me acomodam, dentro.
São três moradores deste mundo imenso,
Eu, Alemão, o meu cão sestroso, e Flora um sabiá
Que se combinam e giram à hora de eu levantar.

Sexta-feira, Julho 27, 2007

MISCIGE

Pelo pisado do pé
Ninguém diz
Se é negro ou branco.
A pele muda
Mas é só um manto.
O branco tem no olho um preto
No do preto tem um branco
E Deus os fez,
Com amor do mesmo tanto.

PAUTA

Eu queria fazer um poema
Assim, métrico,
Tenso, como um fio elétrico
Para que todas as manhãs
Os pássaros viessem pousar e cantar.
Eu queria fazer uma música
Na pauta tensa da rua,
Para todas as noites, a lua,
Tocar nela e rebrilhar.

Quinta-feira, Julho 26, 2007

VERTIGEM
(música)

Meu amor quando me beija, é tão itenso
É como chuva que vem e finda e verão
Deixando poças pelo sólo ressequido
Mudando o cheiro, mudando a estação.

O olhar do meu amor é tão imenso
É a vista que se tem do grande vão
A impressão do artista deixada na tela
Paus d'arco amarelando o sertão.

Ai, o meu amor
Flagrante do sol olhando a lua
Sem braços para poder lhe tocar.

Ai, o meu amor
Vertigem da grande cachoeira
Que de longe a gente vê e escuta.

Domingo, Julho 22, 2007

AMOR E MEIO

Ai, o amor de sempre...
Os mesmos efeitos colaterais
Os mesmos rompantes tardes
Um foco de incêndio que tudo queimará.
Dor que dói e a gente vê
Nos lugares onde se toca
E até onde não está.
Uma tranqüilidade destruída,
Com os danos correndo em nosso sentido.
Ai, o amor, a esperança de todos
E dos mesmos a desesperança.
Aquilo do que se diz:
Quem planta, mal apanha
Ou leva o que não apanhou
Ou não apanhou o que levou.
Amor, essa confusão,
Um entra e sai, por trás dos bombeiros,
Um posto incendiado
Das bombas ao caixa.
E quem assegura que o amor
Repõe danos, que se está assegurado
Nem quem lucre com seu dissipar
Quando ele se decompõe.
Ai, o amor mal visto sentimento,
Andamento em trocadilho,
A batida dos pratos no apogeu da filarmônica,
Desnecessário, mas que, se não fosse,
Desmembraria a vida corriqueira,
Rumo ao amanhã.
Até amanhã, ilusões, até amanhã.
Decepção, depois se vê!

Quinta-feira, Julho 19, 2007

PARA ELA

Tira de mim o que quiseres:
A água o pão, as gotas contadas.
Tira-me outras coisas
Com que me alivio, os emplastros
E elas me entram desproporcionais
Mas não priva os meus olhos,
Coitados por serem parte
Da avidez do meu corpo
Interligado ao meu coração sonhador,
A visão bela de ti.
A imagem mais bela,
Que desses fragmentos caídos, celestiais
Formou-se em mim
Como único remédio e alívio
Para a minha alma tão dilacerada.
Deixa-me cruzar os vales espinhentos
Deslizar nos alagadiços mais traiçoeiros,
E que, no limiar disso,
Avistem-te os meus sentidos
Tão amaciados por tuas passagens
Entrando e saindo, constantemente de mim.
Deixa-me débil envolto em um cárcere fortificado,
Com direito a uma réstia
Que só de manhã presumo entrar,
Pois que meus olhos pra tanta coisa
Ficaram turvos irreversivelmente.
Mas que tua trêmula aparição
Nunca me falte
E que a toda hora eu possa te contar.
E peço-te também:
Não deixa desvanecer-me do cônscio sonho
Como vivo agora, quando estou dizendo.

Segunda-feira, Julho 16, 2007

CHEGADA

Apeio-me do caminhão de paixões e sonhos
Possivelmente conduzido por Deus.
Senti uma tristeza cobrindo os telhados
As cigarras tecendo a tarde murada
O trovão quietou as cordas do piano.
Aparece repentinamente o arco-íris
Pacto aleatório entre Deus e os homens
Sem a confirmação da benzedura divina
E paira sobre os apenados, mendigos, marginais
Sobre os desenganados tristonhos..
De todos os cantos de mim.
Rebenta um dedo terribilíssimo a me apontar
Porque sem os notar não faço conta
Das sobras terminais do mundo.
O céu agora se transfigura, em branco puro.
Céu pintado, que escorria tinta.
Céu sempre futuro e desesperançoso
E como são necessários
Estes sofrimentos de planos desiguais.
E do que mesmo eu me lembre?
Só desses, puxados, caranguejos da vida.

FULGOR

Inquestionavelmente tu
Rosa sobre as outras rosas,
Que sol e vento beijam primeiro
Que à minha boca bate certeira
E os meus olhos, ainda longe,
Avistam-te fulgurosamente
Desta beleza soberba.
Quando te abocanho
Não vejo espinhos
Mas eles já estão mordendo a minha carne.
Trabalho de nada, coisa feita à toa,
De saborear teus lábios
Jamais me cansaria,
Que assim a vida fica boa.
Fico mais, como quem ficasse
Rente a esta imagem linda,
Cativo teu.
De tocá-la enlevam-se minhas mãos
E te colho, lançando dentro de mim
Uma profusão de amor.

Domingo, Julho 15, 2007

ADÍOS

Adiós para mitad de mi vida,
Un alma tan sólo teníamos los dos;
Mas hoy es preciso que esta alma divida
La amarga palabra del este adiós.
¿Por qué nos separan?
¿No saben acaso que pasa la vida cual pasa la flor?
Cruzamos el mundo como aves de paso...
Mañana la saudad,
¿por qué hoy el dolor?
¿La dicha secreta de dos que se adoran
Enoja a los cielos, y es fuerza sufrir?
¿Tan sólo son gratas las almas
Que lloran al torvo destino?...
¿La ley es morir?...
¿Quién es el destino?...
Te arroja a mis brazos,
En mi alma te imprime,
Te infunde en mi ser,
Y bárbaro luego me arranca a pedazos
El alma y la vida contigo...
¿por qué? Adiós... es preciso.
No llores... y parte.
La dicha de vernos nos quitan no más;
Pero un solo instante dejar de adorarte,
Hacer que te olvide,
¿lo pueden? ¡Jamás!
Con lazos eternos nos hemos unido;
En vano el destino nos hiere a los dos...
¡Las almas que se aman no tienen olvido,
No tienen ausencia, no tienen adiós! "

Sábado, Julho 14, 2007

MARCAS

Tudo em mim são pontos
A convergir para as estrelas
Pra vê-las, brincar com elas no entardecer.
Ficar pegando e largando o interruptor de luz
Apontando pra baixo, para o vale das cruzes.
Tudo em mim são pontos
Desses capinzais,
De saudades insuportáveis de onde eu vim puxado,
Do meu outeiro, de glorias e bênçãos,
De onde eu vi nascer uma casa.
Que me abrigou até na obrigação humana
De ser gente. Uma casa solitária como eu, que conversávamos
Dias e noites sem deter-nos em assuntos fúteis.
Na brincadeira, amando inteira a vida dela.
E ela amando-me como feto feito de puro amor.
Ela me mantinha dentro,
Protegendo-se para me proteger,
Adoecendo para me ver crer na cura,
Nos milagres anunciados, bons.
Tudo em mim são pontos
Pra onde convergem luzes, e sóis de calor,
Estrelas que acenam pra ver se já vou,
E eu gosto da casa, essa casa sempre foi o meu amor.

Quinta-feira, Julho 12, 2007

AMOR TAMBÉM É ASSIM

As pessoas se juntam em elos,
Que inesperadamente se rompem
E elas caem, cada uma para um destino.
A bebida e a música
Emitem gritos e frenesis,
Há lembranças que não saem
Como fenda pingando no coração.
E uma brisa de quase nada
Entra com cheiro de saudade.

Seria bom agarrar-se e separar-se,
Fazer as loucuras próprias do amor,
Morar, despejar, sofrer, desesperar.
Era bom ocultar o que se pretende
Enganar, machucar,
O que vale a brisa inocente?
Poder movimentar-se, completo,
As mãos tocando, o que isso diz?
Alguém não entende o por quê
Disso que se passa,
Nem o mundo para,
Tampouco pensa, é algo que não se cogita.
O mundo só se alarga
E acompanha a cada nó dos abraços.
E volta repetindo tudo
Em tempo de lágrimas e suor
Um resquício de que pecou
Pecado, a suprimida pureza.

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Amo-te por tanto tempo, todo tempo
Desde o caos escuro, eu espero por ti
Desde o mundo feito dos dias das noites
Espero-te por necessidade sorrir, chorar.
Um dia quando de um umbral te avistei
E o teu amor exalava já na distância dos vales
Até eu controlar os meus olhos saltados
Até me distinguir, e já sabedor de mim.

E eu falo de ti, a qualquer um, existe
Esta mulher brisa de todas as manhãs
Que agora me acolhe no seu regaço imenso
Que chora por mim, to tanto que chorei por ela.
És meu amor escolhido,
Não pela necessidade de vida, em ti,
Não pelo sinal de um amor que eu levo.
Nossas almas se abraçam e caem e flutuam
Nessa paz quieta que é amar, tortura
A minha vida saber que um dia
Poderá o caos instalar-se de novo
E eu ter de começar de novo a procura.

Domingo, Julho 08, 2007

AMO A NOITE

Eu amo a noite, por que à luz inexistente,
Tudo tem forma e nome de gente.
E eu amo toda gente.
Como amo os animais, pessoas descendentes
Do mesmo olhar vitral.
Eu amo a noite, não por ti
Que deitas do meu lado displicente,
Não pelo o amor que falas sentir por mim.
Amo por que a noite muda meus olhos.
E eu não vejo pelos memos lugares
Os mesmos tristes pensamentos.
Amo a noite, não por ti, violão
Que recurvado em meu regaço, plange
E põe-me a cantar para as estrelas.
Amo a noite pela calmaria que tudo faz,
Que tudo passa, para ser no dia
Gestos esquecíveis.
Tempos lembrados da minha infância
Onde o medo ainda incide, quieto.
Risonho e ofensivo, um algoz.
Eu amo a noite e não detesto o dia,
O dia de fazer, de pegar os quilos,
De morrer daquilo...
Eu amo a noite porque nada há
Em seu silêncio nada que eu conte,
Nem um burburinho , nem sinto,
As batidas tortuosas do meu coração
.

Sexta-feira, Julho 06, 2007

PERDER UM AMIGO

Perder um amigo, é perder um abrigo
Sair pelas noites, caindo nos bares.
É como sumir de uma hora pra outra
O crucifixo, a fé de rezar.
É sentir-se mal onde não há ninguém
Alguém que te veja, e te faça deitar.
E prender o sangue, pra estancar chorar.
É enterrar os dedos bem dentro dos olhos
E chorar aos molhos até se molhar.
Perder um amigo é perder um arrimo
Que em tudo era ele que te sustentava
É ir às campinas e ver que feneceu
O rozeiral que vistes há pouco, inteiro.
É subir a ponte e ouvir do precipício
Um chamado no ouvido, sentir calafrio.
É passar as noites do jeito noturno
É abrir os retratos e lhe ver em tudo,
Ou parte da vida que não faz sentido
Antes do teu choro, choro pelo amigo.
Perder um amigo é a gota mais lenta
Quando se pensava que ainda tinha dentro.
É olhar-se nos outros, a referência perdida,
É como esquecer-se da roupa, da vida
E entregar-se posto, diante de todo mal.
No dia mais claro
A hora imprevista para alguém chegar.
Perder um amigo é perder coragem
E virar, covarde, as costas pro mar,
É ouvir virem ondas piratas do céu.
Perder um amigo é caminhar ao léu
É doer a cabeça, e não ter um remédio
De não mais ter fim, nunca melhorar.
É a necessidade de um psicanalista
Perder um amigo é passar em revista,
À frente dos túmulos, diante da saudade,
Perder um amigo é ir antes da idade.
Perder um amigo é perder o horário,
É querer no íntimo, nunca mais acordar.
Perder um amigo é a dor mais sentida,
É contar por dia umas mil recaídas.
É perder a gota de sangue, derradeira,
Perder um amigo é baixar num hospital.

Sexta-feira, Junho 29, 2007

GUARDADO

Tu me guardas tão distante
Nos teus olhos distraídos
Na tua boca beijando o céu
No teu perfume volátil
Na mais distante das horas
Num crepúsculo, me guardas.
Um cárcere tão doce e longe
No teu coração estalagem
No teu peito bem fechado.
Tu me tens, refugiado,
E só nas horas mais quietas
Quando não há ninguém perto
Tu chegas pra me alimentar,
Traz tua boca cheirosa
O teu regaço onde eu pendo
Falando tanto de saudade.
E tu também és saudosa
Quando me vês pregas os olhos
E te vês dentro dos meus,
E neste tempo parado
Tu me protegges tão zelosa,
Quase nada falta, que eu queira.
- Só que isso fosse verdade.

Quinta-feira, Junho 28, 2007

CONSERTAR O MUNDO

Não é preciso somente abrir a janela
E deparar-se com a claridade
De todas as manhãs, tão iguais.
Ouvir mais nítido o barulho dos riachos
Que descem rentes às encostas,
Levando peixes, pedras sobre seu leito liso.
Ou consternar-se com o vozeio
Da vida que se faz lá fora:
Os que passam, os que ficam,
Esperando e levando, sonhos
E a vida para o sacrifício.

Muito mais necessário se forma,
Olhar todas essas minúcias,
Que são, perturbadoras visões incompletas,
Sem a visão fechada do crítico céptico,
Do filósofo que fala o imponderável.
Do carrasco que a todos odeia,
E deseja a cabeça de cada um numa bandeja.

É necessário saber nesses momentos,
Deixá-los na sua pureza, saltar a janela,
Invadir a porta e abençoar-se deles,
Banhando-se sem pudor de estar nu e vulnerável,
Ao que não mete medo,
Ao que é desnecessário:
Conjeturar, pensar, filosofar.
Coitados dos poetas, filósofos, sonhadores,
Errantes nos caminhos fáceis que levam à luz,
À vida em sua essência,
Como é vivida, obrigatoriamente, por quem nasceu.
Coitado de quem nasce e lança a olhar o mundo
Com a confiança de que ésua missão
Completá-lo. Feito por Deus, erradamente.

Terça-feira, Junho 26, 2007

QUERER

Querer e poder são por dois olhos
Uma visão do extremado
E não do fim
A beleza que encanta
Que eu tanto olho
É o que vejo em em ti
E não há em mim.
O ter e o querer são, por prisão,
A razão de fazer-se
Sem ter fim:
O esplendor de uma rosa
Quando ela abre,
Os teus olhos também
Se alargam assim.
Bem dizer, mal dizer eternamente
Sempre o não
Quanto mais eu te falo sim
O suor do teu corpo
Inteiro brilho
De um brilhante
Lapidado de mim.
Fazer e benzer a obra feita
Um vulto que fala por mim,
O artista que sonho
E que não vejo
Nas rajadas do vento no capim,
Há uma cobra que se mexe quieta
No ritmo que danças pra mim.

Domingo, Junho 24, 2007

A FELICIDADE
A felicidadepassa todos os os dias
Por aqui. Vem com a lua distinta
Com o sol que a ela se abraça
Com o amanhecer
Com o anoitecer
Com os barulhos dos riachos.
A felicidade todos os dias
Passa sobre o meu teto,
E não pousa para uma visita,
A conhê-la a minha vista
E o meu regaço a saúde,
Em abraços e pedidos, amiúde.
Fosse ela pro meu desfrute
Lhe apertava em meu choro.
Deixava-lhe em maus lençóis
Frágeis panos dos meus cobertos.
Diria a ela que eu sei,
Dos dias todos que ela passa
No invisível jeito de ter,
E que nos difíceis sonhos bons,
Eu vejo quem ela é.
Sei que é um bem desejada,
Uma musa de todos, só.
E se num gesto de reparação,
Quizesse me dar a mão,
Eu lhe dava a minha poesia,
Os gestos bons de alegria,
Mostrava-lhe todos os meus dentes,
Guardados para a alegria
Que é filha dela, se pressente.

Sábado, Junho 23, 2007

CHOVE

Chove tanto sobre o meu peito
O inverno mais rigoroso,
Que as flores que ontem colhi
Hoje não colho.
Meus passos se distanciam
Dos lados da grande chuva
Mas não tem jeito,
Aonde eu vou não me ajudo.
Não sei parar de chorar,
Não quero ficar, lembrar
E assim vou tirando a graça
Da temporada dos jardins belos
E se me olham pela janela
Com meus trovões ansiosos
Choram, não por saber,
Que eu sou lusco-fusco.
Ai amor, brincadeira sutil,
Espadim e escudo de plástico
Mas porque dá estes surtos,
De a gente engolir soluços,
Beber lágrimas e chorá-las
Fazer chover na intensidade
Que nenhuma tempestade
Causa tantas avarias.
Ai amor, que a gente quer
Amor que a gente queria,
Coisa que a gente busca,
Esta nebulosa que ofusca
Por trás da gente, de calvário,
Sem sequer saber-se o tanto
De terras que foram embora.

Quinta-feira, Junho 21, 2007

TRAJES DO DIA

Cobriu-se a terra outra vez
Do mesmo claro,
Tecido fino, fiado à mão
De uma teia que ninguém vê.
Começa agora
O dia a dar seus beijos
E a nubente
Despoja-se no campo branco.
E a vestimenta
Da primeira mostra
Vem como maré rasteira
O sol marcando as calçadas
Os campos desocupados.
A cor vestida agora é outra.
De um esmerado tecido cor de ouro
Que os olhares ofuscam
E reluzente enobrece a moça.
E na mudança do tempo um ente fala:
“A felicidade é esta chama branda
Que não queima e vem do céu.
Dela se enfeitam
As colinas as campinas,
E bem repete o milagre
Que só Deus faz:
Ressuscitar a semente
Sob os escombros do tempo
Que ela se deu”.
Depois dos trajes dourados
Tinge-se o dia
De um cinzento
De fogo pigmentado.
É o preparo, foi um banho.
É um agasalho.
E agora é a noite
Separada.

Segunda-feira, Junho 18, 2007

FLORES

Uma flor na sua cor possível
Abre a mão e colhe o sol
E aí se vê nascida
E sua cor. É amarela.
E suas pétalas são longas
E seu galho é marrom,
E o seu perfume desejável.

Uma flor de cor impossível
Combina matizes
Lançando umas sobre as outras
E fica o sol a insistir
Amarelo.
E suas pétalas são longas
E seu galho verde jurema
E o seu perfume é perceptível.

Uma flor que se arranca
Para limpar o lugar das outras
Abre-se e o sol a acolhe
E dá-lhe um amor voluntário
E a leva num relicário
Para enfeitar seu plantio
E muitas delas planta.

Sexta-feira, Junho 15, 2007

MEUS OLHOS

Meus olhos ficam como que fechados
Quando é para olhar o tanto de silêncio admirado.
Por sobre o lastro não confiável, eu piso, terreno
Espreitando a passagem dos homens maus.
Meus olhos ficam como que grudados
Quando é pra ver luzir os facões traiçoeiros
E toda a atenção no tempo, alucinado
Com os dedos pingando água pelas unhas.
Meus olhos ficam como que costurados
Quando é para contar os passos
Do homem com seu chapéu de oliva
Triscando no chão com as pontiagudas
Agulhas de ferro, seus espadins.
Meus olhos ficam como marejados
Quando é pra ver alguém que se calou
Definitivamente por que tinha voz
E a usou, contra as agulhas venenosas.
Meus olhos ficam como encharcadas
Quando é pra ficar de prontidão
Servindo como um idiota o pelotão,
Ou dando água, ou dando café
A quem queria ver um tronco podre.
- Ora se os troncos, que antes foram árvores
E acolheram vidas e deram descanso
Aos passarinhos e homens andarilhos,
Servindo a vida e não matando,
Ficou assim, esturricado, posto ao sol,
Quanto mais um diabo desses
Que o mal proclama e tem duas agulhas
E um espadim envenenado. Que mata
E não enterra os desterrados -.

Quarta-feira, Junho 13, 2007

BRECHANDO DRUMOND

Viver dói,
Certo, como as palavras aproveitadas.
E essa dor está em tudo vivido,
Em tudo que fora sonhado, perdido.
Partido do que não podemos fazer, usufruir,
E sonhar desenfreado, isolado sem o sonho.
E por amor sofremos tanto e mais!
E o que todos sempre desejam
Era que a vida não nos provocasse sofrimentos.
Que bom seria apenas rendermos graças
Por essa pessoa que a gente ama
Sempre perto de nós,
Nos proporcionando um sentimento grande,
Em beleza, com a expectativa,
Que o próprio amor presume,
A companhia boa por um tempo
Mesmo insuficiente, mas que pode
Ser até eternamente, um tempo feliz.

Porque a vida dói?
Porque não contamos
As partes boas que tiramos dela
Pelos sonhos voluntários que
Projetam-nos ao impossível
Ao que não faz parte dela.
E ele em não podendo, nos nega.
Por todos os sortilégios, campos floridos,
Cidades idas, a vida dos outros.
Que gostaríamos de termos passado,
Nós e o nosso amor. E por motivos, que costumamos
Chamar azar, não tivemos a oportunidade
De fazê-lo.
Pelo material abundante na mão de muitos
Que desejamos, fosse nosso
E não tivemos por uma contensão institiva
O prazer de procurarmos.
Pelos filhos que projetamos de nós
E que são outros, na mesma vida,
E agimos como se nem os tivéssemos.
Ou pelos que de fato não tivemos,
E da mesma forma projetamos dentro de nós.
Pelos beijos negados,
Porque vivemos muito, de parecer sem fim
O calvário.

Viver dói,
Porque temos um trabalho que nos exige muito
Por todas as obrigações com a família,
Tirando-nos o tempo livre
Que poderíamos usufruir com nos mesmos,
Indo ao bar, marcar encontros com os amigos,
Amar, demorar deitado, banhar sem pressa,
Ir às encostas floridas sentir o cheiro
Dos lírios silvestres,
Ouvir os pássaros cantando com disposição
Nas copas das árvores।
A vida dói,
Não porque fomos mal gerados,
Ou tivemos problemas com o nosso nascimento
Não por que nossos pais não foram
Pacientes conosco em nossa meninice,
E ainda hoje se mostram duros e alheios
Ao que fazemos ou deixamos de fazer.
E quando vivemos as nossas mais doidas angústias
Nem sempre contamos com um amigo
Que saiba lidar com a gente,
No jeito que aquele momento nosso,
E doloroso exige e parecem não nos compreender

A vida dói,
Não por que confiscaram
Parte de nosso salário, que já considerávamos injusto,
Mas pelos tempos de vôos que
Que nos permitimos todos os dias.
Pela dedução errada de que nossa vida
É um quinhão passado para o nosso nome,
Que a ninguém interessa,
Que ninguém bota preço.

A vida dói,
Porque da mesma forma
Como nos dispomos a negociar a nossa
Outros nos oferecem as suas,
E em nenhuma vemos graça.

Segunda-feira, Junho 11, 2007

AUSÊNCIA

A tua ausência é o ar que sai do peito
E demora em retornar.
É esse tempo morto, desacionado.
O chão varrido por um furacão.
É a nuvem que passa longe
A dar a impressão aos olhos
Que é Deus sozinho, contando o mundo.
É um quarto de hotel
De uma cidade distante
Da qual seisó sei só o nome,
Nenhuma rua, nem um albergue
Que a noite toda permaneci acordado
Mal e só acompanhado.
Apenas um a abajur e uma TV pendurada.
Perdidas horas de sono,
Eu tão perdido, que sumo,
Só do teu lado eu durmo.
A tua ausência é um riacho estanque
Com suas águas tão distantes,
E não dão sinal de que vêem,
Pelo menos agora não.
A tua ausência é essa falta
Que faz em mim um trovão.
Eu vivo de água, eu tenho sede,
Eu vivo de ti e tenho medo,
dessa ausência demorar.

Sábado, Junho 09, 2007

PROCISSÃO DAS FORMIGAS

Procuro o sentido
Do caminho das formigas
E de verdade não sei
Pelos rumos aonde vão
Caminhando à frente
E fazem da frente
O lugar do seleiro
Onde tiram e botam.
E andando o contrário
Elas vêm mais carregadas
E vão na ida
E da mesma forma na volta.
O que lhes preocupa é a folha
Não o chão, não o rumo pontilhado.
Disperso o meu olhar
Vai sem nexo,
Carregado de outra dúvida
Uns pingos que se mexem
Voluntariamente, mas parece à toa
Que não andam perdidos
Seus pezinhos que voam.
Não há marcas das formigas
Pelos caminhos que palmilham
E se alguma marca houvesse
Fácil dava pra identificar,
Pra onde é que elas vão,
De onde vem é que elas vêm.

TERESINA

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